domingo, 3 de outubro de 2010

19- Por que ler este homem?

Quase não parece se tratar de um livro dessa vez, ainda que o seja. Uma coisa são os livros, outras são sempre os homens. Nietzsche extrapola essa questão como parece fazer com tudo. Quem lê Nietzsche não sabe se lê puramente uma filosofia. Ecce Homo é a prova desse difícil limiar. Último livro do filósofo, produzido perto de sua grande crise, a obra é quase uma sangria, expiação, comoção, que deflagra uma última tentativa de ser bem compreendido. Um pavor de fazerem de sua filosofia, e dele mesmo, algo inapropriado.

É um ótimo livro para se iniciar o trato com a sua intragável filosofia. Perigosamente, é claro. A obra alterna momentos de grande lucidez e grande desvarios que já apontam o que viria a seguir em sua vida. Mas ela é um retrato da trajetória de seu pensamento. E aqui vemos como é tênue a linha entre homem e obra, doença e saúde. O livro é um elogio a saúde através da crise.

Ninguém foi mais pessoal do que Nietzsche ao escrever filosofia. A linguagem inflama, queima, faz a gente sair do livro. A escrita própria para encostar na pele da vida, de nós mesmos. Através dela sabemos o quanto pode uma escrita e o quanto podemos. O quanto somos também inflamáveis. Perigo de ser ler Nietzsche: ele pode fazer a gente queimar antes da hora. E o filósofo já sabia que qualquer fanatismo seria prejudicial, inclusive para lê-lo. Um fanatismo que ele não tinha e que não desejaria que ninguém tivesse. É sempre cauteloso ler Nietzsche com um instintor de incêndio ao lado para poder se queimar na medida certa. Um bom exercício para escritores e leitores de plantão.

Seria totalmente trágico uma tentativa de abordar toda a temática do livro aqui. Plural, ele não se deixa pegar em qualquer forma. Frases que brilham como o sol, um clima de verão em pleno inverno. Uma luta constante com aquilo que se é. Não é leviano o subtítulo do livro: como alguém se torna o que é. Tornar-se o próprio destino é tão difícil como se equilibrar na corda bamba. Isso Nietzsche sabe muito bem. A duras penas tornou-se aquilo que foi. Mesmo que para isso tenha sido ou desejado por tanto tempo aquilo que depois lutou contra, a filosofia de Schopenhauer, a música de Wagner, o romantismo, o idealismo.

Nietzsche é contra tudo aquilo que diminui a força da vida. A vida é vontade de potência. Não é o homem que possui a vontade de potência, é a vida.  Daí a sua luta contra a metafísica, o idealismo, o cristianismo. Para ele, os valores criados por essas ideias retiram da vida a sua força e a força do homem.O ressentimento não é senão isso, vontade de que a vida seja outra coisa que não ela mesma, que nela não haja dor, drama, tragédia. Com isso, se entende a aproximação de Nietzsche com Dionísio, a divindade que não cessa de nascer e morrer, sempre renascido, sempre dolorido, mas que nunca sente vontade de não nascer jamais. A tragédia grega inicia com os Ditirambos, cantos em honra a Dionísio, esse ser eternamente renascido. O herói trágico é aquele que aceita o seu destino. Que não desonra a vida por ela conter tudo. O homem desonra a vida quando deseja eliminá-la, purificá-la, em nome de uma outra realidade, de uma outra ideia. A ideia do eterno retorno é um desdobramento que nasce já no Nascimento da tragédia.  

A filosofia de Nietzsche é uma saúde, penosa talvez, no meio de tanta crise. Mas Nietzsche não seria quem é se não aceitasse a sua própria crise. A sabedoria de Nietzsche é aceitar a vida. Fácil, né? Nada. Muito difícil. Não cessamos de criar artifícios para nos livrar da dor, do medo de viver. A filosofia sabe disso. Não é porque sou filósofo que me abstenho de também criar artifício. Sou antes também um criador de artifícios. O difícil é não criarmos artifícios para evitar a dor. Sempre nos acolhe um certo medo mórbido que nasce dentro da gente. Ainda que temida é a dor que nos dá o conhecimento que não temos. Deleuze em sua filosofia fala que o pensamento só se dá na coação, quando forçado a ultrapassar. A natureza da dor é ultrapassar.

Ler Nietzsche é uma saúde. Uma saúde que emerge do trágico. Sabemos ser trágico e tirar dessa nova relação com a vida uma nova perspectiva de saúde? No Ecce homo, o filósofo vira e mexe anuncia-se não como filósofo, mas como fisiologista, interessante, não? A proximidade com o corpo, a proximidade com os instintos, com a natureza. A filosofia de Nietzsche é uma filosofia que diz SIM. Mesmo que para isso tenha que criticar, que dizer muito Não àquilo que desmerece a vida. É dele a maior crítica aos nossos últimos dois mil anos. A filosofia de Nietzsche é um grande renascimento. Quem tem coração bastante para isso? É o que pergunta Zaratustra....     

terça-feira, 28 de setembro de 2010

18 - Entre um pré e um pós


É chegada a hora. Não cabe mais sentir o cheiro de pré-clímax na sua própria vida. Esse ar é aquele ar monótono onde se espera, o que quer que seja, sentado esparramado no sofá a olhar o relógio, segundo após segundo, arrumado com o seu melhor terno, pronto (para o quê?), tempo atrás de tempo. E no final do tempo, onde não há click, campainha ou chegada, retorna-se para o fundo do quarto, o fundo de si, o fundo em si, o fundo. Tempo atrás de tempo. E no final do tempo. E no final do. E no final. E no. E.

Cheiro insuportável esse onde a vida espera. Irrespirável e impossível. O mesmo cheiro talvez do pós-clímax. Onde tudo já foi, onde o mirar para o passado é mera sombra, no precipício do sonho, na corda bamba, finíssima, daquilo que foi real. Pós e pré são as duas faces de uma moeda que ninguém quer. E, no entanto, é aquela em que todos (sim, todos, eu, você, quem você ama, quem você ama, etc.) cunham com a mais pura matéria do tempo presente. Estamos sempre entre um pré e um pós. E nenhum dos dois vale realmente a pena.  

É chegada a hora de enfrentar os grandes. E cada um que coloque os seus gigantes onde lhe cabe. Os meus, por exemplo, podem ser os livros (exitem outros), os grandes autores que renego na mera desculpa de nunca estar pronto para enfrentá-los devidamente. José Maurício X James Joyce. David X Golias. Só que o embate nunca houve porque o David nunca estava pronto. Sabedoria de David: David não esteve pronto em hora nenhuma, inclusive na hora que o sangue do inimigo lhe espirrou na cara. E quantos gigantes fazemos crescer durante a vida porque somente nos distanciamos dele? A ilusão de ótica se dá pelo avesso: quanto mais perto menor o gigante. E, quantos não estão nascendo dentro da gente como doença, medo, vazio, alimentados por essa temeridade do futuro e do passado (sim, também do passado meus amigos...) de não sermos quem somos no momento em que somos? 

Porque sofremos de uma tendência para o não-ser, negativamente. O não-ser pode ser o plural que nos habita, esse é positivo, como possibilidade. Mas essa tendência ao não-ser é apenas o lado obscuro do próprio não-ser que se configura como espera. Potência insone que não se desenvolve. Não porque não habita um fruto, mas porque espera que esse fruto esteja pronto para nascer. Eu mesmo nasci de 7 meses. Totalmente inacabado. Porque não levar essa incabamento como a verdade até o fim?

Não corremos risco nenhum de morrermos de indigestão por devorarmos toda a vida que se apresenta para nós. Não corremos o risco de morrermos de tédio também. Porque a própria natureza da vida é sempre mais plural do que a nossa para a pluralidade. A vida é mais inesgotável do que nós mesmos. O tédio só é um problema para aqueles que não sabem ver ou para aqueles que partem para a fome sempre com a mesma vontade de comer. Até a vontade mais rasteira ganha em ebulição na aposta pela diferença, na ótica de se entrar no mesmo prazer por vias diferentes. O pré-clímax é uma ideia que deve morrer pelo caminho. O pós-clímax é uma ideia que tende a jamais se realizar. O nosso drama é que ambas permanecem mais vivas do que nunca dentro da gente. Vitalizadas pelo medo. Medo de perder a vida, medo de não ter a vida. Mas a vida só se tem no momento em que é vivida e nada mais. Quando se vive já se perde e já não se tem. E sempre na certeza de que, concomitantemente, ganhamos coisas novas para novamente perder. O medo do futuro é uma ilusão que o presente evapora. O medo do passado é um pesadelo que o presente acorda.     

Digo isso porque é chegada a hora. A hora de não mais ter hora. Momento do enfrentamento com o que somos. Disso que somos. O melhor que conseguimos ser sem o real enfrentamento. Porque até a espera cansa do seu próprio cheio nauseabundo. E você não vai querer que a sua vida seja lembrada por esse cheiro de espera, não é? Vai? Repito: essas palavras sempre valem primeiramente para mim. Essas palavras sempre se parecem com algum tipo de espelho onde, no confronto, vou descobrindo e revelando uma nova imagem de mim mesmo. Sei que é chegada a hora de enfrentar-me. Para me tornar maior. A dignidade de enfrentar a si mesmo, os nosso limites, é sempre o combate mais belo que travamos com a vida. É chegada a hora. É chegada a. É chegada. É.

(A imagem não corta a cabeça do inimigo, mas sim a própria cabeça que se renova como um sempre diferente rabo de lagartixa todas as manhãs...)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

17- Íntimos do movimento: potência e ato.


A amplitude de um conceito é medida pela vida que é capaz de inaugurar. Um conceito jamais perde a sua potencialidade, a capacidade de atuar nos espíritos mediante a força criadora de que é composto. Ele está presente como um halo em volta do sol, disposto para aqueles que olham para além do centro iluminado. Conteúdo que se desenvolve na medida em que o continente se abre. Somos nós que permitimos a força de atuação de um conceito. Mas é importante sempre dizer que um conceito é, acima de tudo, invenção, criação, antes de ser real. É mais que reflexão e entendimento. Não é uma adequação entre uma ideia e o real. Um conceito só funciona realmente quando o pensamos como criação.

Ando pensando muito no conceito de Ato e Potência de Aristóteles. Somos feitos de matéria e forma. A matéria diz respeito a potência, a forma ao ato. A matéria espera a forma para ser real, é a forma que atualiza a matéria. Mas é esta quem determina a potencialidade da matéria, é ela quem anuncia os limites para que a forma atue. Até onde a forma vai depende, exclusivamente, da matéria, mas a matéria só alcança sua determinação com a forma. Não existe uma sem a outra. Mas, para que isso tudo?

Porque não deixamos de ser isso: potência e ato. O movimento entre um e outro. Necessariamente entre um e outro. Não paramos de movimentar essa matéria de que somos feitos em novas formas de ser. O devir é esse movimento eterno entre potência e ato em atualizações necessárias e voluntárias. Na natureza, irremediavelmente, necessária. No homem, necessárias e voluntárias. E para que todas essas atualizações?

Aristóteles na Metafísica explica mais ou menos assim: toda substância, todo ser, toda matéria e forma, só muda porque deseja a perfeição. O movimento é da ordem do desejo. E o desejo é da ordem da perfeição. Além disso, todo movimento se dispõe em nome da causa final. Nos movimentamos porque almejamos o nosso limite, o nosso máximo, a nossa perfeição de ser. A inércia ou a apatia é a corrupção dessa perfeição, debilidade do ser que, já no auge de sua forma e matéria, não consegue manter a total potencialidade revelada no ato puro. O que queremos em cada ato nosso é alcançarmos esse ato puro que um dia poderemos fazer. Ato em que estariamos todo. Alguém já conseguiu?

A contraposição, a ideia que nos serve de exemplo e de limite é o Motor Imóvel aristotélico. O Motor Imóvel é o divino, pleno, que está no meio do universo. Ele é o ato puro, a realização de todas as qualidades. Imóvel porque sendo pleno não deseja mais nada. Mover-se para que?

Fica claro o quão longe estamos desse Motor Imóvel e o quão próximos ficamos íntimos do movimento. Essa intimidade com aquilo que nos é natural e que no entanto não se realiza por inteiro. A vida é essa abertura possibilitada pelo movimento que não conseguimos romper.Um conceito só tem validade quando inaugura uma possibilidade para extrapolarmos o nosso ser. Um conceito é essa chave para abrirmos a vida. Vamos para o movimento? Vamos, cada vez mais lúcidos dele, de seu sentido, de seu gosto?

E o quanto há de matéria sem forma em mim, de forma na espera da matéria. E você leitor, o quanto há em você de irrealizável?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

16- Uma frase de Onetti

Ainda não me tornei um escritor de verdade. Daqueles que escrevem páginas e páginas por dia, horas a fio, trabalhando no papel ou na cabeça a arquitetura das palavras, fazendo valer com isso o nome que lhe chamam. Não sou nada disso. Ainda. Estou muito longe de ser. Mas é cada vez mais gratificante para mim sentar e escrever. Prova disso é que os cadernos começam a se acumular aqui dentro de casa...

Porém, a cada trabalho ou tentativa de escrita sou, antes de mais nada, guilhotinado por mim. Coloco o papel na escadaria do cadafalso. Isso pode ser um problema pois, na medida em que mato a mim mesmo,acabo não criando nada. E ontem, participando da reunião semanal dos Clubes dos Pensadores de Niterói, o meu grande amigo e presidente do clube, Ayr Tavares, lança justamente uma frase que pinça o nervo do meu dilema: O excelente é sempre inimigo do bom. E vocês já entenderam o porque, não é? A gente almeja tanto a perfeição pelo pensamento que acaba não criando nada. E isso, tenho certeza, não é bom.

Estou no eterno dilema de que é possível escrever sobre tudo e de que de tudo ainda não sabemos nada o suficiente bem para poder dizer. E hoje em dia é sempre tentador dizer, escrever. Geralmente para falar mal. Como é tentador escrever sobre um livro que se abandonou no meio. Como é tentador falar mal de alguém que acabou de agir mal. Agiu mal, e no entanto agiu. E eu que, na medida em que procuro dentro de minha cabeça a ação perfeita, não fiz absolutamente nada?

Ah, como é tentador escrever. Hoje, todo mundo tem o seu espaço, o seu blog, o seu twitter. E quanta coisa, não? Mas sim, quantas realmente nos afetam? Nos perdemos na profusão de tantas palavras.

Na verdade, escrevo esse post para  evocar  uma frase de Onetti, escritor uruguaio, e que não me sai da cabeça: As únicas palavras que merecem existir são aquelas palavras melhores que o silêncio. Essa frase me comove e me faz rir. Por quê haveríamos de dizer algo melhor que o silêncio? Vocês já escutaram o que o silêncio nos diz?

Acabo de ler a epígrafe do Ricardo Reis que Saramago colocou, ironicamente, no seu livro O ano da morte de Ricardo Reis: Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo. E o silêncio às vezes é de um contentamento...

O que estou realmente buscando é o equilíbrio entre o dizer bem, a tagarelice e o silêncio.

Mas essa frase de Onetti é um conselho para qualquer escritor. Drummond já sabia disso. E alguém já me disse que não foram de palavras que a Ilíada foi feita. Se isso for verdade, quero cada vez mais escrever sem as palavras, nos interstícios da linguagem, atravessando o silêncio, na borda de cada letra. Escrever parece sempre ser algo que beira a impossibilidade. Talvez seja isso escrever: beirar a verdade de cada coisa. A palavra mais próxima do silêncio que no seu hálito brumoso nos dá algo quase invisível e que no entanto existe. Buscar as palavras mais próximas do silêncio, então, será isso?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

15- O riso da verdade + Sofía e Rímini

Quem me conhece nos assuntos literários sabe que gosto de uma determinada reação quando se lê algo muito valioso. Acaba de se ler uma frase e o que acontece? Rimos. A nossa boca corre para o lado, alarga-se como se estivesse tomada de uma euforia e grande luz. Isso é o que gosto de chamar do riso da verdade. Rimos de espanto ou de torpor quando encontramos uma bela verdade. Ou talvez nem isso, rimos quando encontramos uma bela iluminação, um princípio de voo que nos salta do senso comum das ideias, num aforismo, num poema, num trecho de romance. É só vocês puxarem um pouco pela memória, vai? Vai me dizer que só eu que tenho essa reação quando vejo uma bela verdade? Vão me deixar sozinhos? Não, né? É só lembrar.

Acontece que tenho rido muito. Mentira, muito não. Mas quando esse risinho quase cafajeste de quem encontrou um tesouro perdido aparece ele vale pelo muito. É grão de ouro no meio da poeira. Iluminação, catarse, euforia, serenidade. Será que vale a pena aqui colocar aquilo que me fez rir? Poderia colocar aqui frases da Clarice novamente (a Clarice é tão íntima para mim que já esqueci até o sobrenome), dos aforismos do Nietzsche, de belas frases extraídas do conto do Mia Couto, Olhos nus: olhos, na coletânea Essa história está diferente: dez contos para canções de Chico Buarque, mas não quero fazer nada disso. Vai que ninguém ri? Não, não...

Semana passada revi o filme O passado do Hector Babenco, adaptação do livro homônimo do escritor argentino Alan Pauls. E não parei de rir o filme inteiro. Não, não é um filme de comédia. É um filme pesado, intenso, e qualquer outro adjetivo aqui é pura besteira. Se o filme marca, o livro então deixa a gente em carne viva. Mas, então, porque eu ri? Na primeira vez que vi o filme saí com a expressão tensa do cinema. Não entendia as reações dos personagens, a problemática da coisa toda, etc, etc. Mas sabia que ali havia algo muito sério sendo exposto. E fui para o livro. Que também me deixou perplexo. Mas com o tempo a gente constata o seguinte: é isso mesmo. E por isso rimos. Quando virem o filme ou lerem o livro vocês vão achar a Sofía uma louca, o Rímini um palermão, dois seres incompreensíveis para o real. Mas esperem. Guardem as ações e reações deles. Os gestos, os motivos que os levam a fazer tal e tal coisa. E aí, meu amigo, quando não tiver mais jeito.... vem o riso da verdade dessa coisa absurda, e que no entanto nos dá sentido, que é o amor. Olhem, reparem em Sofía e Rímini. Ali há um diagnóstico de nossa situação amorosa. Boa? Ruim?Ah...aí cada um que tire a sua conclusão...certamente haverá um riso...de desespero ou de alegria...

Bem, eu já escrevi sobre O passado no meu blog anterior. Para quem não leu e para não ter que ficar catando no outro blog segue aqui o texto. E não percam essa experiência que é ler o Alan Pauls!

* * *
Acabo de terminar O passado, obra do argentino Alan Pauls, e saio inquieto, não menos inquieto do que quando saí do cinema para ver a adaptação do livro pelas mãos de Hector Babenco. No primeiro encontro saí tão aturdido com a história, a relação ou não-relação de Sofía com Rímini, que fui direto na livraria comprar a sua seiva original. Demorei alguns dias para iniciá-lo e hoje, seis meses depois, concluo a obra. Mas esse ponto final é apenas simbólico: nada se conclui, nada termina.

Essa frase, se não a retirei do livro, encontra lá sua vizinhança. Poderia dizer que é uma frase de Sofía, o tema do livro, uma danação que descobrimos, é uma verdade, é a encarnação da memória, um postulado do amor...tantas coisas extraímos da ambição de Sofía. No final das contas, nem nos perguntamos mais se Rímini volta a amar Sofía ou não, se diante do final enigmático as portas estão para sempre fechadas ou abertas, se Sofía finalmente obtém o seu sucesso. De um certo modo sim, mas a grande questão, independente de Sofía, é que Rímini fracassa. Fracassa em esquecer, fracassa em tentar acelerar o tempo natural da memória. Fracassa em não querer saber o que será decantado ou não. É contra esse empreendimento louco que Sofía arma batalha. Não mais contra os novos amores de Rímini, mas contra esse ambição louca de esquecimento necessário que Rímini impõe a si mesmo para se desligar totalmente de Sofía.

Mas ela possui uma aliada: a vida. É ela que se interpõe entre a memória e o esquecimento. É ela que não para de reanimar as relações aleatórias que faz com que Sofía esteja na latência do presente. Sófia não é só fantasmagórica quando aparece para Rímini. Ele não volta para ela por causa de sua sedução e insistência. Há muito que Sofía desistiu de ligar, de procurar, de ser novamente tocada por Rímini. Vemos dois tipos de cansaços. Ambos se queixam, mas por motivos antagônicos. Sofía se cansa porque ela é o grande arquivo vivo que está condenada a lembrar de tudo. Rímini se cansa porque não para de fugir, de se esconder, para escapar de qualquer relação com o seu passado. Rímini é tão fantasmagórico quanto Sofía. Quem sofre mais, aquele que lembra ou aquele que esquece?

É dessa memória involuntária, não a mesma de Proust, se bem que possui relações, que Sofía extrai a sua teoria Mnemônica do Amor. É por ela, pela memória que a fagulha de amor pode ser reconstruída. De nada adianta seduções, reconquistas. O ser amado pode se ligar ou se desligar com facilidade. Agora da memória onde o amor habitou não. Aqueles que esquecem a parcela de vida que foi construída pelo amor, esses são irrecuperáveis. Aqueles que nutrem mesmo o ódio por quem amou, esses estão dispostos a ser inoculados novamente, neles ainda se mantém a matéria que o amor apossou, mesmo que desvirtuada. É pela memória, pela raiz, que é possível fazer nascer de novo o ecossistema do amor, qualquer amor. Quando Rímini diz que não consegue se lembrar de algum detalhe, que para Sofía é nítido, ela o considera morto e se desespera. O esquecimento é um espetáculo que se representa todas as noites...Lê num determinado ponto Sofía. Pois como extrair vida, fazer o caminho mudar de direção e fruto, de um tecido morto, sem memória? É a memória o lastro entre a matéria e o espírito, entre o amor e nada. Como reconstruir a membrana do amor sem a matéria de que ela é feita?

Nada se conclui, nada termina. Querendo ou não somos vítimas da vida que nos condena a lidar com aquilo que construímos, querendo ou não. Condenados a lembrar? Numa vertente Sartriana da liberdade. O homem está condenado a ser livre. O homem está condenado a lembrar. Condenado a conviver com aquilo que fomos, irreversíveis...é Sofía que mesmo condenada sabe ler os signos da liberdade de sua condenação. É Sofía quem lê os signos amorosos. Os signos amorosos são da ordem da eterna releitura...assim como esse grande livro...

* * *
Ah....e como falta coisa a dizer...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

14- Os buracos da realidade

Acabo de reler Nove noites, do Bernardo Carvalho, agora motivado pelo Clube de Leitura Icaraí (grupo novo que está me acolhendo tão bem e que está gerando novos frutos existências, da mesma forma que o Clube dos Pensadores de Niterói). E a frase que ficou martelando na minha cabeça durante todo o livro foi: a literatura gosta de se embrenhar nos buracos deixados pela realidade. A literatura como arte de criar caminhos ainda não dominados pelo olhar do homem. Uma descobridora de espaços virgens, de territórios da alma ainda não cartografados. A literatura como devir, como movimento para tornar-se além do que se é. A literatura é contra o cansaço de existir. A literatura como movimento de fabulação para o homem ser mais, ir além do homem, para além, para além do mundo, para criar novos mundos e novas possibilidades de vida. A literatura é uma busca com caminho só de ida.

É assim que o narrador de Nove noites parte. Ele vai. E para saber o porque do suicídio do etnólogo americano, Buell Quain, no Brasil, ele não cessa de criar. A verdade do suicídio e as suas motivações, dentro da realidade, é objeto fracassado. O autor sabe, nós que o lemos sabemos também. Mas, então, para que ler o romance - ou ainda, para que criá-lo - se a verdade está fadada a morrer pelo caminho? É aqui que descobrimos que a literatura trabalha para muito além da verdade.

Se o Bernardo Carvalho estivesse realmente preocupado com a verdade não escreveria um romance. Ainda que o romance seja um duplo relato, um que podemos chamar de mais real que o outro (os depoimentos de Manoel Perna) a linha é sempre tênue. Está tudo misturado. E, para aqueles que leram ou lerão o romance, digo uma coisa: se existisse prova definitiva das motivações da morte do etnólogo não haveria romance. O suicídio de Buell Quain é um desses buracos deixados pela realidade que a literatura se apropria para criar.

Bernardo Carvalho sabe disso e nós dá grandes pistas para que isso se revele, num jogo metalinguístico sobre sua própria criação, na narração de Manoel Perna: "Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui"; "As histórias dependem antes de tudo da confiança de quem as ouve, e da capacidade de interpretá-las"; "Só a verdade poria tudo a perder". E tantas outras citações interessantes que remetem a esse jogo que valem a pena serem sublinhadas no romance...

Porque é sobre a arte de criar e de fabular, da relação entre ficção e realidade, que se trata o romance. Da vontade de se escrever e de subverter a realidade pela escrita quando nada mais nos resta. A verdade sobre a morte de Quain vai, aos poucos, se desfazendo em outras teias.

Mas, claro, o destino de Buell, a sua solidão, é impossível não sermos tocados pelo seu destino. Todos nós somos solitários. Todos. Ainda que povoados de gente ao redor. Ainda que lotados de almas interiores, chega um momento da noite da vida em que só há o nosso próprio hálito diante de um espelho deserto, às vezes, não há nem o espelho... Sabemos que quando o homem nasce firma um contrato até a morte com a solidão. E, sim, a imagem do Quain e sua incomunicabilidade nos afetará, um dia ou outro, quando nós mesmos nos sentirmos um pouco desérticos e incompreensíveis...

Bernardo Carvalho em uma de suas entrevistas nos diz que o livro é também sobre a paternidade, que ela está latente, de um modo ou de outro, em todas as partes. Os índios, órfãos da civilização, o narrador e a sua relação desafetiva com o seu, o próprio Quain, afinal. Todos estão um busca do seu ou de algo que o substitua. Agora me pergunto se o narrador ou qualquer artista que cria, ou mesmo nós leitores, não somos também órfãos da realidade? E se nessa nossa falta, imersos nessa realidade que também sempre falta, não estamos a inventar, criando ou percebendo, algo melhor que a própria paternidade da realidade...

O artista é feito de buracos cravados pela realidade. O artista vê também buracos na parede da realidade. É nela que ele entra. É ele também um criador de buracos onde ninguém imaginava. É ele que, ao invés de abrir a porta, entra por onde ninguém ainda sabia ser possível. É ele, também, um criador de buracos no céu negro do guarda-chuva para fazer entrar um raio de sol, um ar, uma gota de chuva...
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Nessa arte de se criar buracos, temos também outro exemplo. Alan Pauls, escritor argentino, está escrevendo uma trilogia de romances sobre a ditadura ocorrida em seu país. Como escrever sobre algo eternamente debruçado e documentado? Pelos buracos possíveis inventados pela literatura. Assim, ele compõe a sua trilogia pela tangente da realidade, pelas veias abertas da sensibilidade. História do pranto (já lançado no Brasil), História do cabelo (em tradução) e História do dinheiro são os novos buracos inventados por Alan Pauls. Vale a pena dar uma olhada na produção desse grande escritor contemporâneo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

13- Palavras como poeira...

Continuo a fazer as minhas leituras habituais, aquelas que programei já a um tempinho. Os Diálogos de Platão, a Ilíada de Homero, a Metafísica de Aristóteles, continuo nessa aventura que é descobrir um mundo antigo, o mundo grego, e trazer dele ainda muito sentido. Trago também muitas diferenças, muitas inquietações de como o homem mudou e de como, também, o homem continua o mesmo. Mas são inquietações que ainda não merecem ainda palavras precisas. E, convenhamos, já falei um bom tempo sobre os gregos por aqui. E já ficou chato, né? Bem, o negócio é o seguinte. Não tenho a menor ideia do que escrever, não vim com nenhum propósito, não tenho inquietação nenhuma, nem deslumbramentos.

Isso é também importante. Mesmo aqueles de alma inquieta e encantada gostam também de um período de marasmo total, sombra e água fresca, uma vista para o mar e nada para pensar. Não? Eu gosto. Ultimamente ando sendo tocado por uma certa serenidade. Um olhar um pouco mais complacente comigo mesmo, um vagar contínuo sem sustos e assombros, mas que mantêm a sua profunda forma de observar o movimento do mundo e o seu silêncio. Nunca tive uma semana tão serena e exemplar. Gostei dela. Mas também não vou gostar muito que ela fique se repetindo. Ora bolas, chega uma hora que até o exemplar cansa.

É engraçado isso de querer dizer as coisas. Escrever é uma eterna danação. Como é mesmo tolo isso de querer sempre se comunicar, né? Tem verdades que só podem ser sentidas e digeridas no silêncio.Porque a sensação que tenho é que não me aproximei nem um pouco do sentimento de serenidade que me atingiu durante essa semana. Ou pode ser isso também, posso estar tão feliz comigo mesmo que não sei ainda existir e me comunicar dentro dessa felicidade. Ou isso: a felicidade pode ser sem graça pacas. Ou isso: a felicidade talvez não tenha nada para ensinar. Será? Talvez eu é que não saiba tirar nada dela. E isso pode ser uma mentira também. Será isso a felicidade? Quando a gente encontra a felicidade a gente sabe que a encontrou? Beija e toca? A ama e quer fazer amor com ela? Mas quem disse que estou feliz? Será só isso, uma serenidade... E me lembro tanto da Clarice novamente...

Esse, sem dúvida, é um texto para ler e esquecer. Nada de significante para se reter. Sei disso, mas é também como a vida. E mesmo assim é um exagero querer comparar esse texto sem significância ao nada da vida. E fico me perguntando se realmente vale a pena escrever quando não se tem nada a dizer. Aumentando ainda mais a profusão de tagarelice, de contradições, de disparates que, como um turbilhão, a mídia nos lança. Mais um post, mais uma página. Para nada. Mas me decidi a escrever alguma coisa. Sem preparo, sem revisão. Seco e cru. Um texto para se engolir a seco. Sem água. Um texto desértico. Onde o leitor deseja escapar para não morrer de fome e de tédio. Palavras como poeira...