quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

25- Troféu Fahrenheit 451, retrospectiva, previsões e mar

Absolutamente mais tentador do que ler uma página de um livro é dar um bom mergulho no mar. Ah, para quem não percebeu, estou já no clima de férias, verão, praia, futvolei, frescobol, todas essas coisas que me compõem. Quem disse que dentro de um ser não pode residir vários? Quanto mais reconheço a pluralidade que habita em mim mais me aproximo da vida e de sua verdade. Estou tão em clima de férias que quase não quero falar sobre livros. Mas como não falar desses bichinhos apaixonantes que me rodeiam diariamente? 

Claro, é a hora da retrospectiva e dos vislumbres futurescos. Começar pelo passado é quase uma ordem. Mas que filósofo gosta de seguir a ordem natural das coisas? Então, ao futuro.

Regra número 1 para a realização dos meus desejos literários: ler todas aquelas obras clássicas que até hoje tive medo de enfrentar. Ta certo, para algumas eu, confesso, ainda não estava preparado. Mas hoje me sinto pronto para devorar tudo. Ano que vêm as leituras serão grandes, não só na qualidade, mas na quantidade também. Vou enfrentar Ulisses, me perder no labiríntico Rayuela, ler e realmente entender o Borges que já li, subir novamente na Montanha mágica de Thomas Mann, e sim, o esperado 2666 do Bolaño; e tantos outros. Todas as leituras iniciadas em algum tempo da minha vida e que desisti no meio do caminho. 2011 é um ano de retomada. Chegou a hora de enfrentar os grandes, os clássicos, engolir o que a vida tem de melhor. Por que se poupar diante do prazer com o medo de não sobrar nada depois? Foi isso que fiz de mim até agora. Mas a vida, a vida sempre sobra. Schopenhauer tinha razão. A vida é, antes de tudo, vontade. E ela jamais acaba. Nós acabamos antes. Por isso, como já disse: devore-se. Um pouco como a Esfinge, só que diante da vida. Decifre e devore a vida. Se não, ela te devora.

O ano foi de ótimas descobertas. E para celebrar essas descobertas invento o troféu Fahrenheit 451. Troféu homônimo ao filme do Truffaut (por favor François, não me cobre direitos autorais!). Bem, para quem não viu o filme eu explico. No final, cada homem que adorava ler e que conseguiu escapar da perseguição policial (eles queimavam os livros!!) escolhia um livro para decorar inteirinho. Assim, os policias podiam queimar os livros, pois estes residiam agora no homem. Como eu queria ter essa capacidade de decorar os livros e tê-los inteiros e eternos na minha alma! Entenderam? Pois é isso: qual o livro do ano que valeria apena interiorizar e colocar eternamente dentro de mim?

Como essa resposta é dificil. Como aqui não dá para delinear a dimensão do tempo que me angustiei até me decidir qual, já adianto que saí da cadeira, fui na cozinha, voltei, escutei umas quinze músicas, e só agora pareço me decidir. Ainda com ressalvas. Espera. Acho que vou mudar. Mudei. Mudei de novo. Agora escolho outro que ainda não tinha pensado. Acho que agora sim, então vai. É esse, Zé? Tem certeza? Não. Mas como tenho que escolher apenas um, aqui vai: Ecce Homo. Em segundo lugar ficou O outro pé da sereia. Completando o pódium: Clarice,.

Porém, vocês sabem que essa história de superlativos é a maior bobagem, né? O Nietzsche já havia nos alertados quanto ao perigo dos superlativos. E quando o superlativos tangem a arte e as pessoas, ele é desnecessário. Mas, sim, decoraria o Ecce homo com muito gosto.

Pronto, já falei dos livros. Agora vou falar das férias. Quais livros vou levar para ler, sabendo que lerei muito pouco ou quase nada, que o mar irá vencer, que os amigos irão vencer, que os esportes irão vencer? Estou levando Anna Kariênina; a nova biografia do Nietzsche; O ano da morte de Ricardo Reis; O mundo como vontade e como representação; Pequenos Amores, Crítica da Razão Pura. Quanta ambição para as férias, não? Mas vou tentar, pelo menos, terminar a Anna.

No fundo, o que quero é o mar e tudo aquilo que ele reprensenta. O mar e o magnetismo que ele exerce em mim. O infinito e aquilo que dele consigo tocar. A liberdade de me ser. Os outros. Os outros de mim mesmo. A vida. Os arredores.

Feliz Natal para todos que me leem. Feliz ano novo!
Férias!!!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

24- O impossível eu

Este texto não sairia não fosse o fato de eu ter visto uma entrevista com o Paulinho Moska falando sobre Zelig, filme do Woody Allen, não fosse o fato de eu ter assistido o próprio filme e se, durante todo esse ano, eu não tivesse sido tocado pela obra do Fernando Pessoa e pelas pessoas que gostam do poeta português. Tudo está no Pessoa. Tudo. E algo permeia todos esses personagens de que falei. Além, claro, daquilo que me inquieta e atravessa.

Zelig é um ótimo personagem, exagerado, na sua mania de se apropriar das qualidades das pessoas que estão próximas. Perto de um chinês, ele se torna chinês. Perto de um zé, ele se torna um zé (ainda que eu não saiba o que venha a ser isso exatamente...). Perto de você, ele se tornará você, tal e qual. O que me chama atenção no Zelig é a sua capacidade de ser outro. Mesmo que para isso ele acabe não sendo ninguém, nem ele mesmo. O Zelig é o exagero da despersonificação e da outridade. Mas, quem é que não sente um pouco de inveja de ser um Zelig, em possuir um pouco dessa sua capacidade de ser outro e, para falar com o Pessoa, ser plural como o universo?

A questão da identidade e da impossibilidade que ela condiciona. As formas possíveis de ser que, em nome daquilo que a gente chama de "eu", são trancafiadas em nome do próprio nome. Suspeito muito de que essa história de "eu" é uma invenção que veio a ser no homem como forma de habitar a existência. O princípio de identidade de Parmênides acabou vencendo o devir contínuo de Heráclito. Quem disse que a filosofia é sempre inatual, mesmo a antiga? Um conceito torna-se real na mendida em que o trabalhamos e o colocamos na vida. Então, tornamo-nos escravos da nossa memória de sermos nós mesmos? E esquecemos as possibilidade de ser que em nós lateja? Quantos "eus" existem e que não tomam vida na existência? O quanto você castra de sua possibilidade em nome de sua história, identidade e nome? A questão construída não é a do ganho em ser um só, mas da perda em não poder ser vários.

Fernando Pessoa. Tudo está no Pessoa e todos estão no Pessoa. O quanto ele nos mostrou da potência de ser! O que é o seu projeto literário calcado nos heterônimos se não essa mensagem: amigo, você que é real, que acredita no real, pode superá-lo. Você, inclusive, pode superar a si mesmo deixando-se ser, ser como os outros, ser como as coisas, o universo inteiro, afinal, sem o prejuízo de se perder ao ser tantos. Olhe, capture, aprenda com uma planta, uma pedra, um pássaro, o outro que você ama ou odeia, mas aprenda que o outro é sempre possível. O outro é sempre maior que o eu, e por isso possível, e talvez mais real que isso que você chama de real e de "eu". Não perca tempo nas amarguras de ser, nos ressentimentos que envolvem a vida, de ter nascido assim e não outro, recrie-se e extrapole o ressentimento, a mágoa de não ser ou não ter sido, o que talvez importa é sempre o passo adiante, a porta adiante a se abrir, a abertura que nós mesmos criamos como invenção de um novo mundo. Eu posso ser eu, o outro, e todo o meio, a ponte, aquilo que trafega e flutua entre o presente o passado e o futuro. Eu, não mais uma invenção que me fecha, mas uma abertura para outros "eus". Devir, tornar-se, a mudança, é sempre mais real que a identidade e o imobilismo. Não há nunca o mesmo "eu", ainda que se queira, durante os dias e as horas. 

Romper com o nascimento da carne, como gosta de escrever Deleuze. Criamos nós mesmos novos nascimentos e novos rompimentos, até muito mais do que achamos, estamos sempre a colocar novas datas, novos motivos e desejos, nisso que chamamos "identidade". A identidade pode ser um péssimo hábito de se lidar apenas e constantemente consigo mesmo.

Ano novo chegando, abrindo novas portas e formas de ser. Formas que ainda não conheço e que amarei encontrá-las. No fundo, quem não gostaria de ser do tamanho do mundo para nutrir toda a vida que há na existência. Um corpo, um tempo, um eu: é sempre muito pouco para o tamanho da vida. Então, antes que a terra nos coma, vamos fazer como o Cazuza: canibais de nós mesmos. E mais, canibais da vida, do outro. 

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

23- Os perseguidores

O biógrafo persegue Jonhy Carter: Cortázar persegue Charlie Parker: eu persigo Julio: você me persegue: e nós, todos, o que perseguimos? Uma linha tênue atravessa nossas biografias ainda que não saibamos para quê, para onde, em que direção vai, o momento em que ela deságua num abismo ou numa ponte. As nossas armas secretas continuam secretas embora haja sempre uma ligeira suspeita de que é sempre próxima a descoberta, e sempre próxima também a ilusão da  finalidade disso tudo.

Com que objetivo caminha uma melodia? Da mesma forma caminha o homem. E uma nota pode arrastar a memória para uma fotografia que perigosamente leva a um pássaro que automaticamente nos encaminha para o outro lado do mundo, outra memória, outro destino que pode até ser o mesmo. Uma melodia de jazz, um improviso, uma pausa de mil compassos: não creio que estou falando de algo bem distante do nosso mais íntimo cotidiano. 

O universo da literatura de Julio Cortázar nos leva exatamente para essas dobras do ordinário onde tudo pode ceder, descambar, iluminar. O homem que caminha na corda bamba e que consegue atravessar o picadeiro é quase sempre o destino mais improvável. A riqueza dessa travessia é se deixar balançar e fazer acontecer os mais improváveis movimentos. Sim, certo, a queda, a probalidade da queda, o seu ar trágico, o seu ar delicioso também. Nós, os perseguidores, gostamos de andar na corda bamba com outros propósitos. Quanto maior o movimento mais bonito o andar, quanto mais lúdico, melhor a queda.

Um pensamento é a maior distância entre dois atos. Ser um pouco com Cortázar ou ser como seus personagens nos dá o estatuto de seres afectivos. O que vem a ser isso que os personagens de Bergman  também conhecem bem, ainda que com outros desdobramentos? Há a ação, há a reação: e esse intervalo entre a ação e a reação é aquilo que propriamente chamamos de espaços de afecção. Afecção é o tempo intervalar entre um momento e outro onde as coisas podem girar como um furacão ou podem só esboçar um espasmo imperceptível de movimento. Uma ameba raramente (trata-se, claro, de um texto um pouco fantástico também) possui tempo para afecção enquanto age e reage na sua existência de capturar os seus nutrientes necessários. E Claro, os personagens de Cortázar escolhem (escolhem?) sempre a opção do furacão. Como Pierre do conto As armas secretas do livro homônimo. Ou mesmo como Jonhy Carter do conto O perseguidor, ou Oliveira de Rayuela. Entre beijar ou não beijar Michèle um mundo fantástico se elabora que continuar a ação como ela começou é quase impossível. Frase sintomática de Pierre: "Já aconteceu de você pensar de repente em coisas completamente alheias às que estava pensando? Você devia me dar alguma coisa, uma espécie de objetivador." Sim, trata-se de um ser afectivo.  E sim, tenho uma leve suspeita que sou também um deles.  E os personagens de Bergman, a câmera de Bergman, não há outra possibilidade senão a de perseguir o rosto, esse território onde a afeção se determina, fronteira impenetrável entre a próxima ação indeterminada que o rosto quase discrimina. E quem, quem, pode dizer que não foi ao menos afectivo uma vez ao dia quando olhou tal rosto de mulher ou foi atingido pela hesitante ação de uma buzina em plena luz de meio dia? Quem entre um êxito e outro não hesita, não treme a alma?     

Porém, a ação é irremediável. Não dá para morarmos nesse intervalo. Temos que escolher uma delas como encontro ou como fuga. Uma ação que determina a nossa luta, a nossa lupa, a busca.  O que o melhor saxofonista de jazz procura em suas notas, em seu virtuosismo? Jonhy Carter, Charlie Parker, eu (sim, toco sax), o que vibra em nós quando atravessamos uma harmonia com o mais alucinado sopro? O que há, afinal, no fim da melodia? Provavelmente nada. Talvez aqui esteja o cerne disso tudo. Não é necessariamente pelo meio que chegamos a determinado fim. Ainda que seja por essa instrumentalização da vida que somos obrigados a caminhar.

Da mesma forma: para que ler todos os bons livros do mundo, escrever todas as histórias possíveis e fantásticas, salvar todos os homems, proteger a nação, proteger o homem, filosofar, jogar, amar? O que buscamos no fundo disso tudo, desses gestos todos, nós, os perseguidores? Plenitude, sabedoria, riqueza da alma, paz, dinheiro, fama, cronópios, um olhar amoroso para sempre nos dizer o quê, o quê? Qual é essa imagem que buscamos e que nos redimirá diante de todo o nosso destino? Não se enganem, todo mundo busca uma imagem, um rosto, uma memória, um passado, um acontecimento que transfigure o seu destino. Quantos artificios podemos inventar para iludir aquilo que realmente buscamos, quantas formas podemos constituir a nossa alma para nos aproximar daquilo que realmente queremos. Quantas máscaras, quantas cores, nós, os camaleões da existência? E pode ser que mais próximos ficamos da coisa procurada quanto mais usamos máscaras, quanto mais despistamos os outros de nossa busca íntima, porque só nós mesmos é que podemos agarrar essa matéria informe de nossa busca. O destino é sempre da ordem do instransferível. O gozo de ser a sua própria melodia e a vibração que isso provoca no mundo. Daí todo gozo frustrado do plágio de buscar o que o outro foi, alcançou, existiu. A linha que nos une é tênue, mas o destino da linha é sempre o da tangente, obrigatoriamente.

Jonhy Carter passou longe, Cortázar pode ser que sim, e eu não tenho ainda a menor ideia do que persigo com tanta fúria no corpo através da arte e da filosofia e em todo o resto, em todo gesto. Mas amo perseguir essa coisa improvável que nunca encontrarei. E aqui não há sinais de pessimismo, porque não encontrar não é sinal de pessimismo.  E se encontrar o que procura, acalma-se, isso é incomunicável. 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

22- Ne me quitte pas, Amélie...

O que será que me afeta quando penso em Amélie? E mais, o que pode ainda me afetar quando escrevo sobre ela? Simplesmente não resisto, beiro o confessional, ainda que não o deseje. Não, obviamente não é um amor platônico, longe disso, faz tempo que já o superei, mas posso chamar o que sinto por essa menina aí do lado com uma colher interrogativa de "amor crônico". Sim, crônico porque geralmente o esqueço. Mas ele volta. E ataca. E afeta. E dura. E como uma dor que só se potencializa no frio - semblantes de geleiras em minha alma? Não, não... - ela subverte o natural estado das coisas.

Não lembro qual foi o ano em que vi O fabuloso destino de Amélie Poulain, mas sei que depois dele há uma sucessão quase regrada de minha visita - anualmente, isso é certo - para rir e chorar nas suas expressões e cores, jogos e melancolias. Tento descobrir aqui uma lei: qual é o estado do meu espiríto que me evoca a retirá-lo da prateleira e assistí-lo com um transbordamendo que se recria cada vez mais. 

Ah, Amélie...talvez você funcione para mim como um arquétipo que busco na mulher amada e em mim mesmo. Um eterno jogo lúdico com a vida, a grandeza das pequenas ações, as pequenas invenções do pensamento, essa transcendência do destino que pode ser feita aos poucos e cotidianamente. Fazer com que um anão de jardim viaje para mostrar ao pai que é possível a vida até no imobilismo; jogar com a sua paixão um jogo de tabuleiro que se faz na rua para encontrar em fim a mulher amada; inventar amores possíveis, reconstituir fotografias, cartas, para se encontrar apenas um enigma desnecessário que só encontra a sua utilidade no ato mesmo da criação; devolver uma caixa com relíquias antigas de um menino para um senhor que também já não necessita dela. E aqui encontramos a verdade de Amélie e, se quiserem levar para o lado confessional, a minha também: nunca ninguém precisa de jogos, cartas, fotografias, anões, mas só essas "desnecessidades" é que contornam o todo que é necessário. O afeto é o halo que possibilida a visão do sol.

Não cesso de buscar esse halo, de inventá-lo, no mundo e em mim e, claro,  naquilo que chamo de amor. A minha paixão pela arte e pela filosofia torna essa halo cada vez mais intenso de cor e brilho. Tornar a arte a potencializadora dos meus próprios afetos. Ta aí, sempre quando me acho muito rústico, brutamontes, um ambicioso talvez, é que preciso de Amélie. A humildade das pequenas buscas é que talvez nos torne grandes.

Todo idealização é um erro, já sabem disso, não é? Frustração na certa, pode crer. Não quero idealizar Amélie, colocá-las em outras, nem dela extrair o maior destino de todos. Quero apenas percorrer o meu destino sem esquecer do nosso eterno jogo possível com a vida. Procurem os pequenos jogos, os pequenos prazeres, entrem num devir-pequeno para ver com o microscópio o nosso real tamanho. Mínimos, múltiplos, comuns, um, nenhum, cem mil. Podemos ser todos, nenhum, múltiplos, comuns, depende apenas do tipo de jogo que você quer travar com a vida. Ah, e sabendo sempre que ganhar ou perder é sempre provisório e o que vale a pena são os dados lançados e a batida acelerada do coração quando eles estão no ar. Lançar os dados, lançar os dados...

Ne me quitte pas, Amélie. Não esquecer do seu destino e do seu jogo, dos seus prazeres. São todos meus. Amélie é contra a imposição do ordinário que vai se encruando na nossa pele, nos nossos dias, no nosso modo de olhar. Eis a nossa lúdica batalha, repleta, no entanto, de gravidade. Novamente, escrevo para não esquecer.  

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

21- A morfina do cotidiano

A literatura ou a vida é sempre uma pergunta mal formulada. Aqueles que escrevem sabem melhor disso do que aqueles que leem. Não se trata de um fato. Todavia, não se trata também de uma fatia que cabe à literatura cortar para que desse pedaço emane um clarão. É sempre em tom de conciliação que a literatura trata da vida, mesmo que para isso o meio seja a revolta. Escrever é - sempre- um caso de revolta. Alguma leitura também.

"A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida", já dizia o nosso Capitão do Mato, Vinicius de Moraes. O mesmo serve para a literatura. Quantos livros já abandonados no meio do caminho por não ser encontrado no momento certo? Da mesma forma os nossos amores inacabados? Quantas pessoas na hora errada, perfeitas talvez, mas na hora errada, no lugar errado. É muito mais no tempo que no espaço que os encontros se equivocam.

Esse ano está sendo de intensa busca pelo novo. Aqui, ainda que não seja essa a regra, o novo é necessariamente o atual. Já conheci muita novidade que nasceu muito antes de mim. Disso podemos concluir que também a novidade só se dá nessa coisa disponível que são os encontros. Então, procurei neste ano quem nunca li. E olha que a lista é gigantesca...

Mia Couto, Tatiana Salem Levy, Roberto Bolaño, Muriel Barbery, Raduan Nassar, e agora Philip Roth. Acho que escrevi sempre um post sobre esses seguintes autores. Porém, quem me provocou este ano no campo da literatura foi mesmo a Tatiana e o Bolaño. Chegou a vez do Roth.

A literatura que me interessa é a do sôco no estômago. Claro, há sempre o encantamento, caso, por exemplo, do Mia Couto. Porém, é sempre um sôco no estômago que busco na literatura. Tendência ao masoquismo? Não, não, meu caro, é somente para fazer latejar algum órgão que já está entorpecido pela morfina do cotidiano.  O que quero são porradas nos meus olhos para que deixem de ver as figuras tristes da vida que já morreram. O que quero são porradas na minha boca para que sintam pela ferida aberta um novo sabor da mistura do meu sangue com a vida. O que quero são porradas no meu coração para que palpite por alguma vida que ainda não conheço.

Então, autor bom é aquele que a gente lê uma obra e corre na livraria para comprar a próxima, quiçá, a bibliografia inteira e depois se virar com o cartão de crédito. Acabei de ler Indignação do Philip Roth e já quis ler todo o resto.

O mais incrível é ver como a indignação pode nascer da mais simples bondade, da incompreesão da retidão, da negligência por não perceber o objetivo do outro. Messner procura simples objetivos: escapar da Guerra da Coréia, escapar do pai obsessivo pela sua segurança, escapar da religião. Tudo o que ele não quer é ser incomodado numa segunda ordem já que a vida o havia incomodado antes. A história individual é sempre influenciada pelo destino do mundo, pela força dos acontecimentos históricos. A literatura de Philip Roth parece exatamente denunciar esse tipo de influência e a vulnerabilidade de todo homem comum, e no caso de Indignação, do homem jovem ainda em formação e toda a trepidação do destino que essa idade já deflagra. E a constatação é a do despreparo do homem comum em face dos grande acontecimentos históricos, dos acontecimentos coletivos. Claro, como sermos coletivos e ceder com primazia a um acontecimento coletivo se o que menos somos hoje é exatamente isso? O destino de Mesner é um destino de fuga diante do quase inevitável. Como não padecer ao destino coletivo em nome individual?  E como seguir alheio a qualquer destino, inclusive ao mais distante?

Não vou contar o destino do herói do livro. Que esses meus textos sirvam sempre para apontar, para induzir sempre um novo sôco, para que a cabeça mergulhe sempre mais fundo na imaginação de ser. A tarefa aqui é sempre de conduzir. Quase uma mão segurando uma outra mão. E, nesse caso, eu mesmo me conduzo para os outros livros do Roth. Ainda que não queiramos, o destino do homem americano é muito próximo do nosso. Sofremos de muitas mesmas angústias, nós, os ocidentais. Os outros livros do Roth parecem apontar para angústias que ainda não sabemos diagnosticar.

Vamos, contra a morfina do cotidiano? Qual o próximo Roth? O próximo autor? O próximo livro? Quantos desencontros são necessários para, enfim, encontrarmos? E nunca é questão de contabilidade, mas de contratualidade com o que se encontra. A validade nos interstícios dos interesses. É isso que promove o tempo e o espaço dos desencontros, a duração e a largura dos encontros. Claro, um coração largo para suportar e amar sempre ajuda. 

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

20- O outro pé do Mia Couto

Certamente, o outro pé do Mia Couto crava sua pegada no encantamento. O um, deve ser como os de todos, dorme, almoça, janta, calça sapatos, sandálias, se esparrama na areia, se fere com um prego, etc e tal. O outro não se deixa jamais abater. Antes, abate. Sem armas, sem guerras, com um artifício que não estamos acostumados a lidar. Sim, o outro pé do Mia Couto crava sua pegada no encantamento. E com ele, faz a gente caminhar para lá, pegada atrás de pegada.

Saí da leitura do livro O outro pé da sereia um pouco aturdido, meio sem saber o que dizer (ainda continuo sem saber). O nosso amigo moçambicano sabe nos arrebatar numa simples frase. Assim, como quem não quer nada, no meio da narrativa, ele solta a digníssima frase que nos faz gargalhar por dentro. São, tantas e tantas, que o meu livro está mais sublinhado do que limpo. A tentação de transcrevê-las aqui é grande. Até porque, preciso ocupar espaço para ocultar a minha falta de dizer. Será que resisto até o fim?

Mas, além das frases, o encantamento parece ser a matéria vital de que os personagens são feitos. E parece ser a matéria também da África que conhecemos no romance. Nunca estive na África, talvez seja o lugar cujo conhecimento mais me falta. Talvez faltem a todos. Talvez também seja o lugar mais propício para a poesia. A verdade que dela evola, que nos sopra nos ouvidos. Uma verdade muito mais bonita do que todas as outras, mais ingênua, mais feliz. Os personagens vivem de forma poética. E explicam o mundo através da poesia. Os ausentes, as fotos, a estrela, Nzuzu, Lázaro Vivo, Constança, Mwadia...quanta explicação poética para as durezas do mundo, as mortes, o abandono. Chegou a hora de colocar um pouquinho das frases para rechear o espaço com belas iguarias poéticas do nosso Mia (grande amigo que me ajuda a suprir a minha total falta de imaginação para abordá-lo...):

"A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa." (pág. 65)

"A saudade é a única dor que me faz esquecer as outras dores." (pág. 75)

"Salvar é uma grande palavra. E o amor é uma palavra ainda maior. Grandes palavras escondem grandes enganos." (pág. 93)

"Queremos ter o gosto de usufruir sem a responsabilidade de possuir." (pág.143)

"Só temos como nossos os filhos que são infelizes. Os outros, os que gozam de felicidade acabam se afastando em suave dança com a vida." (pág. 168)

"A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós." (pág. 192)

"A gente ama alguém que desconhecemos, casa com quem conhece e vive com uma pessoa irreconhecível. Às vezes, temos luas-de-mel, outras vezes, luas melosas. A maior parte do tempo, porém, são noites sem luar nenhum." (pág. 314)

Ta bom, né? Já deu para curtir um pouco da genialidade do nosso amigo africano, né? E digo: não é toda genialidade que é bem humorada. Então, andem depressa para correr atrás do pé do Mia... 

Conhecemos a África pela sua terra. Não, no Mia há sempre uma parcela de água a percorrer as difíceis rachaduras da vida. Na água os seres são praticamente eternos moventes, sem ponto de repouso. Podemos dizer que o pensamento poético é o mais aquoso de todos os pensamentos, a fluidez, o indeterminável, as ondas que nele habitam. A África é terra fértil para a poesia porque recheada de água. A água é uma boa arma para a rigidez de certos pensamentos cravados na terra. Água é poesia.

Acima de tudo, o autor da vez nos chama atenção para uma seguinte coisa: a verdade que a poesia inaugura.  Há a filosofia, a ciência, e nos acostumamos às verdades que elas possibiltam. Mas a verdade da poesia ficou distante da nossa realidade. Quem hoje se habilita a explicar algum fato com alguma poesia. Não, não é nem de longe de poetas e poemas que falo, mas de invenções, muito próximas, talvez, àquelas explicações ingênuas das crianças (que de ingênuas não tem absolutamente nada). O filósofo alemão, Walter Benjamin, sabe disso melhor que eu. Um exemplo, não do Benjamin, mas dessas crianças que ele evoca e que por acaso habitam também a minha vida:
- Júlia, você vai dormir de óculos?
- É Zé...é para enxergar melhor o sonho...   

domingo, 3 de outubro de 2010

19- Por que ler este homem?

Quase não parece se tratar de um livro dessa vez, ainda que o seja. Uma coisa são os livros, outras são sempre os homens. Nietzsche extrapola essa questão como parece fazer com tudo. Quem lê Nietzsche não sabe se lê puramente uma filosofia. Ecce Homo é a prova desse difícil limiar. Último livro do filósofo, produzido perto de sua grande crise, a obra é quase uma sangria, expiação, comoção, que deflagra uma última tentativa de ser bem compreendido. Um pavor de fazerem de sua filosofia, e dele mesmo, algo inapropriado.

É um ótimo livro para se iniciar o trato com a sua intragável filosofia. Perigosamente, é claro. A obra alterna momentos de grande lucidez e grande desvarios que já apontam o que viria a seguir em sua vida. Mas ela é um retrato da trajetória de seu pensamento. E aqui vemos como é tênue a linha entre homem e obra, doença e saúde. O livro é um elogio a saúde através da crise.

Ninguém foi mais pessoal do que Nietzsche ao escrever filosofia. A linguagem inflama, queima, faz a gente sair do livro. A escrita própria para encostar na pele da vida, de nós mesmos. Através dela sabemos o quanto pode uma escrita e o quanto podemos. O quanto somos também inflamáveis. Perigo de ser ler Nietzsche: ele pode fazer a gente queimar antes da hora. E o filósofo já sabia que qualquer fanatismo seria prejudicial, inclusive para lê-lo. Um fanatismo que ele não tinha e que não desejaria que ninguém tivesse. É sempre cauteloso ler Nietzsche com um instintor de incêndio ao lado para poder se queimar na medida certa. Um bom exercício para escritores e leitores de plantão.

Seria totalmente trágico uma tentativa de abordar toda a temática do livro aqui. Plural, ele não se deixa pegar em qualquer forma. Frases que brilham como o sol, um clima de verão em pleno inverno. Uma luta constante com aquilo que se é. Não é leviano o subtítulo do livro: como alguém se torna o que é. Tornar-se o próprio destino é tão difícil como se equilibrar na corda bamba. Isso Nietzsche sabe muito bem. A duras penas tornou-se aquilo que foi. Mesmo que para isso tenha sido ou desejado por tanto tempo aquilo que depois lutou contra, a filosofia de Schopenhauer, a música de Wagner, o romantismo, o idealismo.

Nietzsche é contra tudo aquilo que diminui a força da vida. A vida é vontade de potência. Não é o homem que possui a vontade de potência, é a vida.  Daí a sua luta contra a metafísica, o idealismo, o cristianismo. Para ele, os valores criados por essas ideias retiram da vida a sua força e a força do homem.O ressentimento não é senão isso, vontade de que a vida seja outra coisa que não ela mesma, que nela não haja dor, drama, tragédia. Com isso, se entende a aproximação de Nietzsche com Dionísio, a divindade que não cessa de nascer e morrer, sempre renascido, sempre dolorido, mas que nunca sente vontade de não nascer jamais. A tragédia grega inicia com os Ditirambos, cantos em honra a Dionísio, esse ser eternamente renascido. O herói trágico é aquele que aceita o seu destino. Que não desonra a vida por ela conter tudo. O homem desonra a vida quando deseja eliminá-la, purificá-la, em nome de uma outra realidade, de uma outra ideia. A ideia do eterno retorno é um desdobramento que nasce já no Nascimento da tragédia.  

A filosofia de Nietzsche é uma saúde, penosa talvez, no meio de tanta crise. Mas Nietzsche não seria quem é se não aceitasse a sua própria crise. A sabedoria de Nietzsche é aceitar a vida. Fácil, né? Nada. Muito difícil. Não cessamos de criar artifícios para nos livrar da dor, do medo de viver. A filosofia sabe disso. Não é porque sou filósofo que me abstenho de também criar artifício. Sou antes também um criador de artifícios. O difícil é não criarmos artifícios para evitar a dor. Sempre nos acolhe um certo medo mórbido que nasce dentro da gente. Ainda que temida é a dor que nos dá o conhecimento que não temos. Deleuze em sua filosofia fala que o pensamento só se dá na coação, quando forçado a ultrapassar. A natureza da dor é ultrapassar.

Ler Nietzsche é uma saúde. Uma saúde que emerge do trágico. Sabemos ser trágico e tirar dessa nova relação com a vida uma nova perspectiva de saúde? No Ecce homo, o filósofo vira e mexe anuncia-se não como filósofo, mas como fisiologista, interessante, não? A proximidade com o corpo, a proximidade com os instintos, com a natureza. A filosofia de Nietzsche é uma filosofia que diz SIM. Mesmo que para isso tenha que criticar, que dizer muito Não àquilo que desmerece a vida. É dele a maior crítica aos nossos últimos dois mil anos. A filosofia de Nietzsche é um grande renascimento. Quem tem coração bastante para isso? É o que pergunta Zaratustra....     

terça-feira, 28 de setembro de 2010

18 - Entre um pré e um pós


É chegada a hora. Não cabe mais sentir o cheiro de pré-clímax na sua própria vida. Esse ar é aquele ar monótono onde se espera, o que quer que seja, sentado esparramado no sofá a olhar o relógio, segundo após segundo, arrumado com o seu melhor terno, pronto (para o quê?), tempo atrás de tempo. E no final do tempo, onde não há click, campainha ou chegada, retorna-se para o fundo do quarto, o fundo de si, o fundo em si, o fundo. Tempo atrás de tempo. E no final do tempo. E no final do. E no final. E no. E.

Cheiro insuportável esse onde a vida espera. Irrespirável e impossível. O mesmo cheiro talvez do pós-clímax. Onde tudo já foi, onde o mirar para o passado é mera sombra, no precipício do sonho, na corda bamba, finíssima, daquilo que foi real. Pós e pré são as duas faces de uma moeda que ninguém quer. E, no entanto, é aquela em que todos (sim, todos, eu, você, quem você ama, quem você ama, etc.) cunham com a mais pura matéria do tempo presente. Estamos sempre entre um pré e um pós. E nenhum dos dois vale realmente a pena.  

É chegada a hora de enfrentar os grandes. E cada um que coloque os seus gigantes onde lhe cabe. Os meus, por exemplo, podem ser os livros (exitem outros), os grandes autores que renego na mera desculpa de nunca estar pronto para enfrentá-los devidamente. José Maurício X James Joyce. David X Golias. Só que o embate nunca houve porque o David nunca estava pronto. Sabedoria de David: David não esteve pronto em hora nenhuma, inclusive na hora que o sangue do inimigo lhe espirrou na cara. E quantos gigantes fazemos crescer durante a vida porque somente nos distanciamos dele? A ilusão de ótica se dá pelo avesso: quanto mais perto menor o gigante. E, quantos não estão nascendo dentro da gente como doença, medo, vazio, alimentados por essa temeridade do futuro e do passado (sim, também do passado meus amigos...) de não sermos quem somos no momento em que somos? 

Porque sofremos de uma tendência para o não-ser, negativamente. O não-ser pode ser o plural que nos habita, esse é positivo, como possibilidade. Mas essa tendência ao não-ser é apenas o lado obscuro do próprio não-ser que se configura como espera. Potência insone que não se desenvolve. Não porque não habita um fruto, mas porque espera que esse fruto esteja pronto para nascer. Eu mesmo nasci de 7 meses. Totalmente inacabado. Porque não levar essa incabamento como a verdade até o fim?

Não corremos risco nenhum de morrermos de indigestão por devorarmos toda a vida que se apresenta para nós. Não corremos o risco de morrermos de tédio também. Porque a própria natureza da vida é sempre mais plural do que a nossa para a pluralidade. A vida é mais inesgotável do que nós mesmos. O tédio só é um problema para aqueles que não sabem ver ou para aqueles que partem para a fome sempre com a mesma vontade de comer. Até a vontade mais rasteira ganha em ebulição na aposta pela diferença, na ótica de se entrar no mesmo prazer por vias diferentes. O pré-clímax é uma ideia que deve morrer pelo caminho. O pós-clímax é uma ideia que tende a jamais se realizar. O nosso drama é que ambas permanecem mais vivas do que nunca dentro da gente. Vitalizadas pelo medo. Medo de perder a vida, medo de não ter a vida. Mas a vida só se tem no momento em que é vivida e nada mais. Quando se vive já se perde e já não se tem. E sempre na certeza de que, concomitantemente, ganhamos coisas novas para novamente perder. O medo do futuro é uma ilusão que o presente evapora. O medo do passado é um pesadelo que o presente acorda.     

Digo isso porque é chegada a hora. A hora de não mais ter hora. Momento do enfrentamento com o que somos. Disso que somos. O melhor que conseguimos ser sem o real enfrentamento. Porque até a espera cansa do seu próprio cheio nauseabundo. E você não vai querer que a sua vida seja lembrada por esse cheiro de espera, não é? Vai? Repito: essas palavras sempre valem primeiramente para mim. Essas palavras sempre se parecem com algum tipo de espelho onde, no confronto, vou descobrindo e revelando uma nova imagem de mim mesmo. Sei que é chegada a hora de enfrentar-me. Para me tornar maior. A dignidade de enfrentar a si mesmo, os nosso limites, é sempre o combate mais belo que travamos com a vida. É chegada a hora. É chegada a. É chegada. É.

(A imagem não corta a cabeça do inimigo, mas sim a própria cabeça que se renova como um sempre diferente rabo de lagartixa todas as manhãs...)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

17- Íntimos do movimento: potência e ato.


A amplitude de um conceito é medida pela vida que é capaz de inaugurar. Um conceito jamais perde a sua potencialidade, a capacidade de atuar nos espíritos mediante a força criadora de que é composto. Ele está presente como um halo em volta do sol, disposto para aqueles que olham para além do centro iluminado. Conteúdo que se desenvolve na medida em que o continente se abre. Somos nós que permitimos a força de atuação de um conceito. Mas é importante sempre dizer que um conceito é, acima de tudo, invenção, criação, antes de ser real. É mais que reflexão e entendimento. Não é uma adequação entre uma ideia e o real. Um conceito só funciona realmente quando o pensamos como criação.

Ando pensando muito no conceito de Ato e Potência de Aristóteles. Somos feitos de matéria e forma. A matéria diz respeito a potência, a forma ao ato. A matéria espera a forma para ser real, é a forma que atualiza a matéria. Mas é esta quem determina a potencialidade da matéria, é ela quem anuncia os limites para que a forma atue. Até onde a forma vai depende, exclusivamente, da matéria, mas a matéria só alcança sua determinação com a forma. Não existe uma sem a outra. Mas, para que isso tudo?

Porque não deixamos de ser isso: potência e ato. O movimento entre um e outro. Necessariamente entre um e outro. Não paramos de movimentar essa matéria de que somos feitos em novas formas de ser. O devir é esse movimento eterno entre potência e ato em atualizações necessárias e voluntárias. Na natureza, irremediavelmente, necessária. No homem, necessárias e voluntárias. E para que todas essas atualizações?

Aristóteles na Metafísica explica mais ou menos assim: toda substância, todo ser, toda matéria e forma, só muda porque deseja a perfeição. O movimento é da ordem do desejo. E o desejo é da ordem da perfeição. Além disso, todo movimento se dispõe em nome da causa final. Nos movimentamos porque almejamos o nosso limite, o nosso máximo, a nossa perfeição de ser. A inércia ou a apatia é a corrupção dessa perfeição, debilidade do ser que, já no auge de sua forma e matéria, não consegue manter a total potencialidade revelada no ato puro. O que queremos em cada ato nosso é alcançarmos esse ato puro que um dia poderemos fazer. Ato em que estariamos todo. Alguém já conseguiu?

A contraposição, a ideia que nos serve de exemplo e de limite é o Motor Imóvel aristotélico. O Motor Imóvel é o divino, pleno, que está no meio do universo. Ele é o ato puro, a realização de todas as qualidades. Imóvel porque sendo pleno não deseja mais nada. Mover-se para que?

Fica claro o quão longe estamos desse Motor Imóvel e o quão próximos ficamos íntimos do movimento. Essa intimidade com aquilo que nos é natural e que no entanto não se realiza por inteiro. A vida é essa abertura possibilitada pelo movimento que não conseguimos romper.Um conceito só tem validade quando inaugura uma possibilidade para extrapolarmos o nosso ser. Um conceito é essa chave para abrirmos a vida. Vamos para o movimento? Vamos, cada vez mais lúcidos dele, de seu sentido, de seu gosto?

E o quanto há de matéria sem forma em mim, de forma na espera da matéria. E você leitor, o quanto há em você de irrealizável?

terça-feira, 14 de setembro de 2010

16- Uma frase de Onetti

Ainda não me tornei um escritor de verdade. Daqueles que escrevem páginas e páginas por dia, horas a fio, trabalhando no papel ou na cabeça a arquitetura das palavras, fazendo valer com isso o nome que lhe chamam. Não sou nada disso. Ainda. Estou muito longe de ser. Mas é cada vez mais gratificante para mim sentar e escrever. Prova disso é que os cadernos começam a se acumular aqui dentro de casa...

Porém, a cada trabalho ou tentativa de escrita sou, antes de mais nada, guilhotinado por mim. Coloco o papel na escadaria do cadafalso. Isso pode ser um problema pois, na medida em que mato a mim mesmo,acabo não criando nada. E ontem, participando da reunião semanal dos Clubes dos Pensadores de Niterói, o meu grande amigo e presidente do clube, Ayr Tavares, lança justamente uma frase que pinça o nervo do meu dilema: O excelente é sempre inimigo do bom. E vocês já entenderam o porque, não é? A gente almeja tanto a perfeição pelo pensamento que acaba não criando nada. E isso, tenho certeza, não é bom.

Estou no eterno dilema de que é possível escrever sobre tudo e de que de tudo ainda não sabemos nada o suficiente bem para poder dizer. E hoje em dia é sempre tentador dizer, escrever. Geralmente para falar mal. Como é tentador escrever sobre um livro que se abandonou no meio. Como é tentador falar mal de alguém que acabou de agir mal. Agiu mal, e no entanto agiu. E eu que, na medida em que procuro dentro de minha cabeça a ação perfeita, não fiz absolutamente nada?

Ah, como é tentador escrever. Hoje, todo mundo tem o seu espaço, o seu blog, o seu twitter. E quanta coisa, não? Mas sim, quantas realmente nos afetam? Nos perdemos na profusão de tantas palavras.

Na verdade, escrevo esse post para  evocar  uma frase de Onetti, escritor uruguaio, e que não me sai da cabeça: As únicas palavras que merecem existir são aquelas palavras melhores que o silêncio. Essa frase me comove e me faz rir. Por quê haveríamos de dizer algo melhor que o silêncio? Vocês já escutaram o que o silêncio nos diz?

Acabo de ler a epígrafe do Ricardo Reis que Saramago colocou, ironicamente, no seu livro O ano da morte de Ricardo Reis: Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo. E o silêncio às vezes é de um contentamento...

O que estou realmente buscando é o equilíbrio entre o dizer bem, a tagarelice e o silêncio.

Mas essa frase de Onetti é um conselho para qualquer escritor. Drummond já sabia disso. E alguém já me disse que não foram de palavras que a Ilíada foi feita. Se isso for verdade, quero cada vez mais escrever sem as palavras, nos interstícios da linguagem, atravessando o silêncio, na borda de cada letra. Escrever parece sempre ser algo que beira a impossibilidade. Talvez seja isso escrever: beirar a verdade de cada coisa. A palavra mais próxima do silêncio que no seu hálito brumoso nos dá algo quase invisível e que no entanto existe. Buscar as palavras mais próximas do silêncio, então, será isso?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

15- O riso da verdade + Sofía e Rímini

Quem me conhece nos assuntos literários sabe que gosto de uma determinada reação quando se lê algo muito valioso. Acaba de se ler uma frase e o que acontece? Rimos. A nossa boca corre para o lado, alarga-se como se estivesse tomada de uma euforia e grande luz. Isso é o que gosto de chamar do riso da verdade. Rimos de espanto ou de torpor quando encontramos uma bela verdade. Ou talvez nem isso, rimos quando encontramos uma bela iluminação, um princípio de voo que nos salta do senso comum das ideias, num aforismo, num poema, num trecho de romance. É só vocês puxarem um pouco pela memória, vai? Vai me dizer que só eu que tenho essa reação quando vejo uma bela verdade? Vão me deixar sozinhos? Não, né? É só lembrar.

Acontece que tenho rido muito. Mentira, muito não. Mas quando esse risinho quase cafajeste de quem encontrou um tesouro perdido aparece ele vale pelo muito. É grão de ouro no meio da poeira. Iluminação, catarse, euforia, serenidade. Será que vale a pena aqui colocar aquilo que me fez rir? Poderia colocar aqui frases da Clarice novamente (a Clarice é tão íntima para mim que já esqueci até o sobrenome), dos aforismos do Nietzsche, de belas frases extraídas do conto do Mia Couto, Olhos nus: olhos, na coletânea Essa história está diferente: dez contos para canções de Chico Buarque, mas não quero fazer nada disso. Vai que ninguém ri? Não, não...

Semana passada revi o filme O passado do Hector Babenco, adaptação do livro homônimo do escritor argentino Alan Pauls. E não parei de rir o filme inteiro. Não, não é um filme de comédia. É um filme pesado, intenso, e qualquer outro adjetivo aqui é pura besteira. Se o filme marca, o livro então deixa a gente em carne viva. Mas, então, porque eu ri? Na primeira vez que vi o filme saí com a expressão tensa do cinema. Não entendia as reações dos personagens, a problemática da coisa toda, etc, etc. Mas sabia que ali havia algo muito sério sendo exposto. E fui para o livro. Que também me deixou perplexo. Mas com o tempo a gente constata o seguinte: é isso mesmo. E por isso rimos. Quando virem o filme ou lerem o livro vocês vão achar a Sofía uma louca, o Rímini um palermão, dois seres incompreensíveis para o real. Mas esperem. Guardem as ações e reações deles. Os gestos, os motivos que os levam a fazer tal e tal coisa. E aí, meu amigo, quando não tiver mais jeito.... vem o riso da verdade dessa coisa absurda, e que no entanto nos dá sentido, que é o amor. Olhem, reparem em Sofía e Rímini. Ali há um diagnóstico de nossa situação amorosa. Boa? Ruim?Ah...aí cada um que tire a sua conclusão...certamente haverá um riso...de desespero ou de alegria...

Bem, eu já escrevi sobre O passado no meu blog anterior. Para quem não leu e para não ter que ficar catando no outro blog segue aqui o texto. E não percam essa experiência que é ler o Alan Pauls!

* * *
Acabo de terminar O passado, obra do argentino Alan Pauls, e saio inquieto, não menos inquieto do que quando saí do cinema para ver a adaptação do livro pelas mãos de Hector Babenco. No primeiro encontro saí tão aturdido com a história, a relação ou não-relação de Sofía com Rímini, que fui direto na livraria comprar a sua seiva original. Demorei alguns dias para iniciá-lo e hoje, seis meses depois, concluo a obra. Mas esse ponto final é apenas simbólico: nada se conclui, nada termina.

Essa frase, se não a retirei do livro, encontra lá sua vizinhança. Poderia dizer que é uma frase de Sofía, o tema do livro, uma danação que descobrimos, é uma verdade, é a encarnação da memória, um postulado do amor...tantas coisas extraímos da ambição de Sofía. No final das contas, nem nos perguntamos mais se Rímini volta a amar Sofía ou não, se diante do final enigmático as portas estão para sempre fechadas ou abertas, se Sofía finalmente obtém o seu sucesso. De um certo modo sim, mas a grande questão, independente de Sofía, é que Rímini fracassa. Fracassa em esquecer, fracassa em tentar acelerar o tempo natural da memória. Fracassa em não querer saber o que será decantado ou não. É contra esse empreendimento louco que Sofía arma batalha. Não mais contra os novos amores de Rímini, mas contra esse ambição louca de esquecimento necessário que Rímini impõe a si mesmo para se desligar totalmente de Sofía.

Mas ela possui uma aliada: a vida. É ela que se interpõe entre a memória e o esquecimento. É ela que não para de reanimar as relações aleatórias que faz com que Sofía esteja na latência do presente. Sófia não é só fantasmagórica quando aparece para Rímini. Ele não volta para ela por causa de sua sedução e insistência. Há muito que Sofía desistiu de ligar, de procurar, de ser novamente tocada por Rímini. Vemos dois tipos de cansaços. Ambos se queixam, mas por motivos antagônicos. Sofía se cansa porque ela é o grande arquivo vivo que está condenada a lembrar de tudo. Rímini se cansa porque não para de fugir, de se esconder, para escapar de qualquer relação com o seu passado. Rímini é tão fantasmagórico quanto Sofía. Quem sofre mais, aquele que lembra ou aquele que esquece?

É dessa memória involuntária, não a mesma de Proust, se bem que possui relações, que Sofía extrai a sua teoria Mnemônica do Amor. É por ela, pela memória que a fagulha de amor pode ser reconstruída. De nada adianta seduções, reconquistas. O ser amado pode se ligar ou se desligar com facilidade. Agora da memória onde o amor habitou não. Aqueles que esquecem a parcela de vida que foi construída pelo amor, esses são irrecuperáveis. Aqueles que nutrem mesmo o ódio por quem amou, esses estão dispostos a ser inoculados novamente, neles ainda se mantém a matéria que o amor apossou, mesmo que desvirtuada. É pela memória, pela raiz, que é possível fazer nascer de novo o ecossistema do amor, qualquer amor. Quando Rímini diz que não consegue se lembrar de algum detalhe, que para Sofía é nítido, ela o considera morto e se desespera. O esquecimento é um espetáculo que se representa todas as noites...Lê num determinado ponto Sofía. Pois como extrair vida, fazer o caminho mudar de direção e fruto, de um tecido morto, sem memória? É a memória o lastro entre a matéria e o espírito, entre o amor e nada. Como reconstruir a membrana do amor sem a matéria de que ela é feita?

Nada se conclui, nada termina. Querendo ou não somos vítimas da vida que nos condena a lidar com aquilo que construímos, querendo ou não. Condenados a lembrar? Numa vertente Sartriana da liberdade. O homem está condenado a ser livre. O homem está condenado a lembrar. Condenado a conviver com aquilo que fomos, irreversíveis...é Sofía que mesmo condenada sabe ler os signos da liberdade de sua condenação. É Sofía quem lê os signos amorosos. Os signos amorosos são da ordem da eterna releitura...assim como esse grande livro...

* * *
Ah....e como falta coisa a dizer...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

14- Os buracos da realidade

Acabo de reler Nove noites, do Bernardo Carvalho, agora motivado pelo Clube de Leitura Icaraí (grupo novo que está me acolhendo tão bem e que está gerando novos frutos existências, da mesma forma que o Clube dos Pensadores de Niterói). E a frase que ficou martelando na minha cabeça durante todo o livro foi: a literatura gosta de se embrenhar nos buracos deixados pela realidade. A literatura como arte de criar caminhos ainda não dominados pelo olhar do homem. Uma descobridora de espaços virgens, de territórios da alma ainda não cartografados. A literatura como devir, como movimento para tornar-se além do que se é. A literatura é contra o cansaço de existir. A literatura como movimento de fabulação para o homem ser mais, ir além do homem, para além, para além do mundo, para criar novos mundos e novas possibilidades de vida. A literatura é uma busca com caminho só de ida.

É assim que o narrador de Nove noites parte. Ele vai. E para saber o porque do suicídio do etnólogo americano, Buell Quain, no Brasil, ele não cessa de criar. A verdade do suicídio e as suas motivações, dentro da realidade, é objeto fracassado. O autor sabe, nós que o lemos sabemos também. Mas, então, para que ler o romance - ou ainda, para que criá-lo - se a verdade está fadada a morrer pelo caminho? É aqui que descobrimos que a literatura trabalha para muito além da verdade.

Se o Bernardo Carvalho estivesse realmente preocupado com a verdade não escreveria um romance. Ainda que o romance seja um duplo relato, um que podemos chamar de mais real que o outro (os depoimentos de Manoel Perna) a linha é sempre tênue. Está tudo misturado. E, para aqueles que leram ou lerão o romance, digo uma coisa: se existisse prova definitiva das motivações da morte do etnólogo não haveria romance. O suicídio de Buell Quain é um desses buracos deixados pela realidade que a literatura se apropria para criar.

Bernardo Carvalho sabe disso e nós dá grandes pistas para que isso se revele, num jogo metalinguístico sobre sua própria criação, na narração de Manoel Perna: "Vai entrar numa terra em que a verdade e a mentira não têm mais os sentidos que o trouxeram até aqui"; "As histórias dependem antes de tudo da confiança de quem as ouve, e da capacidade de interpretá-las"; "Só a verdade poria tudo a perder". E tantas outras citações interessantes que remetem a esse jogo que valem a pena serem sublinhadas no romance...

Porque é sobre a arte de criar e de fabular, da relação entre ficção e realidade, que se trata o romance. Da vontade de se escrever e de subverter a realidade pela escrita quando nada mais nos resta. A verdade sobre a morte de Quain vai, aos poucos, se desfazendo em outras teias.

Mas, claro, o destino de Buell, a sua solidão, é impossível não sermos tocados pelo seu destino. Todos nós somos solitários. Todos. Ainda que povoados de gente ao redor. Ainda que lotados de almas interiores, chega um momento da noite da vida em que só há o nosso próprio hálito diante de um espelho deserto, às vezes, não há nem o espelho... Sabemos que quando o homem nasce firma um contrato até a morte com a solidão. E, sim, a imagem do Quain e sua incomunicabilidade nos afetará, um dia ou outro, quando nós mesmos nos sentirmos um pouco desérticos e incompreensíveis...

Bernardo Carvalho em uma de suas entrevistas nos diz que o livro é também sobre a paternidade, que ela está latente, de um modo ou de outro, em todas as partes. Os índios, órfãos da civilização, o narrador e a sua relação desafetiva com o seu, o próprio Quain, afinal. Todos estão um busca do seu ou de algo que o substitua. Agora me pergunto se o narrador ou qualquer artista que cria, ou mesmo nós leitores, não somos também órfãos da realidade? E se nessa nossa falta, imersos nessa realidade que também sempre falta, não estamos a inventar, criando ou percebendo, algo melhor que a própria paternidade da realidade...

O artista é feito de buracos cravados pela realidade. O artista vê também buracos na parede da realidade. É nela que ele entra. É ele também um criador de buracos onde ninguém imaginava. É ele que, ao invés de abrir a porta, entra por onde ninguém ainda sabia ser possível. É ele, também, um criador de buracos no céu negro do guarda-chuva para fazer entrar um raio de sol, um ar, uma gota de chuva...
* * *
Nessa arte de se criar buracos, temos também outro exemplo. Alan Pauls, escritor argentino, está escrevendo uma trilogia de romances sobre a ditadura ocorrida em seu país. Como escrever sobre algo eternamente debruçado e documentado? Pelos buracos possíveis inventados pela literatura. Assim, ele compõe a sua trilogia pela tangente da realidade, pelas veias abertas da sensibilidade. História do pranto (já lançado no Brasil), História do cabelo (em tradução) e História do dinheiro são os novos buracos inventados por Alan Pauls. Vale a pena dar uma olhada na produção desse grande escritor contemporâneo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

13- Palavras como poeira...

Continuo a fazer as minhas leituras habituais, aquelas que programei já a um tempinho. Os Diálogos de Platão, a Ilíada de Homero, a Metafísica de Aristóteles, continuo nessa aventura que é descobrir um mundo antigo, o mundo grego, e trazer dele ainda muito sentido. Trago também muitas diferenças, muitas inquietações de como o homem mudou e de como, também, o homem continua o mesmo. Mas são inquietações que ainda não merecem ainda palavras precisas. E, convenhamos, já falei um bom tempo sobre os gregos por aqui. E já ficou chato, né? Bem, o negócio é o seguinte. Não tenho a menor ideia do que escrever, não vim com nenhum propósito, não tenho inquietação nenhuma, nem deslumbramentos.

Isso é também importante. Mesmo aqueles de alma inquieta e encantada gostam também de um período de marasmo total, sombra e água fresca, uma vista para o mar e nada para pensar. Não? Eu gosto. Ultimamente ando sendo tocado por uma certa serenidade. Um olhar um pouco mais complacente comigo mesmo, um vagar contínuo sem sustos e assombros, mas que mantêm a sua profunda forma de observar o movimento do mundo e o seu silêncio. Nunca tive uma semana tão serena e exemplar. Gostei dela. Mas também não vou gostar muito que ela fique se repetindo. Ora bolas, chega uma hora que até o exemplar cansa.

É engraçado isso de querer dizer as coisas. Escrever é uma eterna danação. Como é mesmo tolo isso de querer sempre se comunicar, né? Tem verdades que só podem ser sentidas e digeridas no silêncio.Porque a sensação que tenho é que não me aproximei nem um pouco do sentimento de serenidade que me atingiu durante essa semana. Ou pode ser isso também, posso estar tão feliz comigo mesmo que não sei ainda existir e me comunicar dentro dessa felicidade. Ou isso: a felicidade pode ser sem graça pacas. Ou isso: a felicidade talvez não tenha nada para ensinar. Será? Talvez eu é que não saiba tirar nada dela. E isso pode ser uma mentira também. Será isso a felicidade? Quando a gente encontra a felicidade a gente sabe que a encontrou? Beija e toca? A ama e quer fazer amor com ela? Mas quem disse que estou feliz? Será só isso, uma serenidade... E me lembro tanto da Clarice novamente...

Esse, sem dúvida, é um texto para ler e esquecer. Nada de significante para se reter. Sei disso, mas é também como a vida. E mesmo assim é um exagero querer comparar esse texto sem significância ao nada da vida. E fico me perguntando se realmente vale a pena escrever quando não se tem nada a dizer. Aumentando ainda mais a profusão de tagarelice, de contradições, de disparates que, como um turbilhão, a mídia nos lança. Mais um post, mais uma página. Para nada. Mas me decidi a escrever alguma coisa. Sem preparo, sem revisão. Seco e cru. Um texto para se engolir a seco. Sem água. Um texto desértico. Onde o leitor deseja escapar para não morrer de fome e de tédio. Palavras como poeira...

quinta-feira, 29 de julho de 2010

12- Inquieto encanto

Pergunto-me como algo pode encantar e inquietar por tanto tempo. Penso nisso, por exemplo, quando estudo Platão e no meio da República me deparo novamente com o Mito da Caverna. É sempre inquietante ler a sua descrição eterna de nós mesmo, da condição eterna de seres rodeados pelas sombras e pela imperfeição do conhecimento. Sempre, independente do que sabemos, é bom compreendermos isso, habitaremos sempre essa caverna e esse mito de que nos fala Platão. Tolos são aqueles que, por algum motivo, posto, mérito,conhecimento, prática, creem que saíram da caverna. Não saíram. Nunca sairão. Ainda que julguemos saber, todo o nosso saber é poeira cósmica diante do todo que se configura a aprendizagem. Sempre nos falta. A fabricação do não-ser (não o nada, mas a diferença que se expõe nas coisas já por não ser o ser que somos) é infinitamente maior do que aquilo que podemos realizar no tempo de nosso ser. O ser é sempre pouco para o não-ser que habita em nós como potencialidade do diferente. Isso ao mesmo tempo que assusta, acalma. Encanta e Inquieta. Sim, somos aquilo que nos configura. Mas dá para ser mais. Sempre mais. Sim, não somos o todo mas podemos ser e ter uma parte. E nessa participação no todo somos já muitos.

O mito da caverna nos abre a perspectiva para a eterna inquietação filosófica. A crua atitude do olhar atento. Não é por acaso que a questão do conhecimento está intimamente ligada à questão do olhar. O próprio mito da caverna é uma prova disso, ainda que Platão desconfie sempre do sensível e do olhar. E é por desconfiar do sensível e do que dele nos chega que Platão pode ver mais. Olha...aquilo que você vê pode não ser assim...pode mudar...pode estar influenciado pelo seu sensível (que é mutável)...e olha...a coisa também muda...o movimento é sempre um espanto no qual temos que cravar a desconfiança do conhecimento.Olhou, viu, observou. Agora, retorne o olhar, veja de novo, observe...e agora? Onde está o conhecimento e a verdade? É sempre inquietante. Uma obsessão encantadora. Por isso é que, cada vez mais, quem já viu, quem já saiu (ou pensa que saiu) da caverna, não pode voltar atrás, não pode fechar os olhos.Quem já viu determinadas coisas pesadas dessa vida sabe do que estou falando. Como fechar os olhos e não escrever sendo um Dostoiévski? Como? Não...o degrau do conhecimento ultrapassado se desintegra tornando a volta (a ingenuidade de não saber) um caminho impossível. Quem lida com o conhecimento e com a sensibilidade que nos faz conhecer mais - a aposta no sensível como na razão é sempre uma alternativa para chegar - percebe que é de irremediáveis voltas que o nosso caminho é traçado, a cada verdade na cara, a cada morte anunciada, a cada fome, a cada vazio. Essa inquietação diante das verdades flutuantes que descobrimos passo a passo. Esse encanto diante de cada erro destecido para se tornar novamente verdade. Esse inquieto encanto diante de tudo.

E a atualidade é um voraz produtor de novas cavernas...
E do encontro com as verdades os nossos olhos ainda mais sangrentos por ter visto o invisível...
E novos olhos anestesiados por novas sombras...
E por ai vai...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

11- Memória, poesia e história

No átimo de tempo onde o homem possui uma consciência, ele entrevê a sua finitude, não como espécie, mas como indivíduo, e é também a partir dessa consciência de si que o homem pode vislumbrar uma tentativa de ultrapassar essa linha efêmera de vida que o relega ao destino do esquecimento. Algo no homem sugere uma outra forma de permanência que não aquela sugerida pela circularidade da vida das coisas da natureza que, tal como nos aponta Hannah Arendt, no mundo grego, conferia um status de imortalidade. O homem contesta esse caráter de imortalidade construindo para si um material que preservaria, no sentido e até onde no tempo o homem perdurasse, os feitos e as falas significativas, dignas da memória, no qual ele pudesse angariar para si uma sabedoria e uma experiência.

É de grande valia a análise de Hannah Arendt sobre as questões da origem da poesia e da história em seu livro Entre o passado e o futuro, principalmente quando ela nos relembra a passagem onde Odisseu (ou Ulisses) escuta os seus próprios feitos na Guerra de Tróia na corte dos Feácios. Estaria ali na Odisséia a origem da história e da poesia condensadas em uma passagem? Mais do que apenas um grande exemplo, o que podemos extrair desse trecho é o caráter incontestável de busca no mundo grego pela preservação da ação e da fala, seja através da mitologia, da história, da poesia ou da filosofia.

Seja na forma poética ou histórica, o que está em jogo é o que vale a pena recordar do mundo e do homem. O que vale recordar para ultrapassar a práksis e léksis para ganhar o estatuto de história e poesia? Porque o homem busca escrever para obter uma outra relação de experiência com a vida? Entre tantas respostas possíveis podemos dizer que o homem faz poesia ou história para penetrar no ser. Penetra-se mais quando o homem volta para si mesmo sem, no entanto, deixar de penetrar naquilo que o circunda e que lha dá o limite de suas condições, ou seja, a natureza.

É nesse duplo espelhamento através da poesia e da história que o homem pode atravessar a ponte entre o instante e o eterno, mesmo sendo este eterno do tamanho da natureza do homem.É nesse sentido que podemos dizer que a poesia e a história cravam uma memória dentro da consciência do homem para além de sua memória habitual. A memória cravada é a memória lapidada e inspirada daquilo que no instante soube transcender, numa espécie de ressonância, num sentido. Não é qualquer ato ou fala que se transforma, não é tudo que é digno da memória. O esquecimento é um espetáculo que se representa todas as noites, como nos diz Wilhelm Jensen. Podemos dizer que a memória do que é digno de ser recordado requer trabalho, mas não um trabalho qualquer: evocar a memória é antes evocar também os meios pelos quais o objeto ganha para si a coloração que realçara a plenitude que, imerso no instante, ele não pôde perceber ou realizar. A poesia e a história são os esmeros do homem para o homem. É nessa busca, nesse trabalho infindável, que o homem tem a chance de não permitir que haja uma lacuna entre o passado e o futuro, como bem apontou Hannah Arendt, que ele possa se fazer coeso e livre, fruto do passado e da memória.

A memória feita pela história e pela poesia é o grande tecido vital pela qual a vida, não esquecendo dos componentes de que ela é feita, preservando a sua matéria, pode restituir e iluminar, regenerar e tornar híbrida a existência que um dia foi perdida. Poesia e história como grandes seivas terrestres capazes de irrigar com plenitude os feitos e falas dos homens, presentes, passados, futuros.

domingo, 11 de julho de 2010

10- Diálogos do ser

Ei. Olha para mim. Agora olhe para essas palavras, você que me lê. Agora esqueça tudo isso...olhe para você. Nada mais interessa. Olhe para o seu fora, aquilo que nos aparece. Olhe para o seu dentro, aquilo que é o sumo do que vemos, ainda que não totalizado, mas que pulsa como potência para a realidade.

Isso. Olhe novamente para você, dessa vez com um olhar cerrado, profundo, como quem procuro na extensão do horizonte uma iluminação. É mero detalhe que você esteja lendo essa página porque o que interessa nunca esteve aqui. É de você que falo. É de você que deve escutar a voz.

"Conhece-te a ti mesmo": frase inscrita no pórtico do oráculo de Delfos e que Sócrates entende e introjeta como sua missão. A partir de agora devo conhecer a mim mesmo. Não seria essa a missão de todos? Mas antes de nos analisarmos parece que estamos invocados com os defeitos dos outros. Ah...se fosse fácil mudar a nós mesmos...e nesse nosso hábito de criticar queremos mudar antes o mundo...e esquecemos de nós...Ah...se fosse fácil mudar a nós mesmos...O quanto é que você conseguiu mudar em você, hein?

Mas Sócrates está lá no oráculo para saber se é o homem mais sábio do mundo. E a Pitonisa pergunta: o que você sabe? Sócrates: só sei que nada sei. Pitonisa: és o mais sábio de todos os homens. Primeiro passo: reconhecer a ignorância. Segundo: sabendo algo, que isso é pouco, muito pouco. A partir daí buscar a si mesmo. As duas frases "só sei que nada sei" e "conhece-te a ti mesmo" estão unidas mais do que nunca, como elevação para a busca (de quê?). A verdade. Mas não como lugar último e iluminado onde de lá não se sai e nem quer sair. A verdade como processo e utopia. E uma vez escutei de um uruguaio, que por sua vez escutou de outro, no seguinte diálogo: a utopia serve para quê? Primeiramente, para nada. Mas lembre-se que ela é como o horizonte. Ele está lá. E queremos alcançá-lo, lindo, onde tudo se promete. Mas a cada passo que damos em sua direção ele recua. A cada dez passos mais, mais ele se afasta. O horizonte como verdade em fuga . Mas para quê, então? Para isso, caminhar. E ponto.

Sócrates caminha na sua utopia. E como ele todos os filósofos. Mas o primeiro desafio, antes de construir, é derrubar, destruir. Arrancar do outro que o que se fez dele ainda não é nada. Maior é o que ele pode fazer consigo mesmo. Porque não é de hoje que somos forjados mais com matéria imposta, passivamente ou não, de que com matéria criada e sabida como nossa. Quebra do princípio de originalidade: somos tão pouco nós mesmo. Bem menos do que a gente imagina. Sempre mais históricos, sempre mais hereditários, sempre mais outro que mesmo. Então, Sócrates quebra. E aqueles que se permitem tal desonra do que se é - mas qual eu? - num primeiro passo recua, mas depois avança como nunca. És outro, sendo de ti.

Mas quem hoje se permite abalar as estruturas? Quem é humilde o suficiente para dizer que até hoje não se conhece direito? Quem? Não é de se estranhar que Sócrates fez muitas inimizades, e que por causa dela foi julgado e condenado. Mas quem é que suporta tamanha ironia? Pois o danado do Sócrates sabia das coisas. Claro que sabia, ora bolas. Essa é a sua maior ironia. Mas depois de passada a ironia vem a graça. No momento exato em que o outro se permite ver - no diálogo - de que precisa do outro para saber. Mas de que é capaz, também, por si de ir onde quiser. No diálogo, sempre no diálogo, a filosofia afirma o outro para ser ela mesma. Aprendemos com a filosofia um modo ser. Ela que pretende saber tudo, sabe que não sabe nada. Que tudo ainda é muito pouco. Que sempre nos falta...diálogos do ser...e o homem quando se comunica já precisa do outro, mesmo que para caminhar sozinho, e ser.

Ei. Olhe para essas palavras. Mas olhe para você. E assim vamos, juntos.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

9- Congruências

Qual é o grande desafio quando se decide falar sobre um livro? E o pior, qual é o desafio quando se decide escrever algo de novo sobre um livro que está na moda, que muita gente leu e que, cada um a seu jeito, soube tirar do livro o essencial? Bem, o livro de que trato é A elegância do ouriço da filósofa francesa Muriel Barbery.

Antes de escrever esse texto percorro os inúmero blogs que tratam do livro. E eles dizem mais ou menos a mesma coisa: um pouco à moda de cada um o tema do livro. Mas encontrei uma variação interessante no http://peregrinacultural.wordpress.com/2008/07/08/a-elegancia-do-ourico-muriel-barbery/, a variação que aborda o jogo de imagens que faz Barbery em relação com os quadros do Magritte. E a suposição de que o nome da personagem principal, Renée, seja uma homenagem ao pintor. E desta homenagem uma pista interessante para se percorrer o romance.

E a dica vale. É sem dúvida no jogo do ocultamento que o romance encontra um dos seus principais motes: eu sou; mas a minha aparência não diz realmente o que eu sou. E você que me olha com a sua ideia de mim, que não se mantém apenas no presente mas em todo o estereótipo da visão, é incapaz de dizer além do que vê, é incapaz de supor além do visível um mundo. Uma metafísica da existência se vislumbra para além da normalidade do ser, para além do cotidiano, para além de meras concierges e crianças. Assim, Paloma e Renée juntas. Juntas como sempre estiveram. Mas além desse jogo de espelhos partidos onde o que se vê é sempre outro, onde a crítica do olhar é sempre severa (e aqui vale fazer uma singela homenagem ao Saramago que na epígrafe do Ensaio sobre a cegueira nos diz: Se podes olhar, vê. Se podes ver, repare. Nessa importância de ter olhos quando todos os demais cegaram...), onde o que é oculto parece dizer mais que o explícito, onde a profundidade ganha da superfície é que a escritora francesa aponta para as congruências da existência...

Que congruência? Esse é um dos títulos de um dos capítulos do romance. E é dele que tento partir para abordar o romance. Mas antes de tentar escrutinar as congruências do romance quero apontar pequenos souvenirs literários que em nada mudarão a leitura ou releitura do romance. Bijuterias, portanto, para o apetite da alma: 16 de junho é o dia que Paloma decide se matar. É justamente nesse dia que é desenrolado todo o romance Ulisses de James Joyce. Bijuteria de camelô: James Joyce escolheu esse dia para tecer o romance porque foi num 16 de junho longínquo que ele conheceu a sua mulher Nora Joyce. Será que ela se deu conta disso?

Bem, isso não tem a absoluta relevância.

Outra congruência é com Albert Camus. Também um filósofo que escreve romances. E ele mesmo diz que para filosofar era preciso escrever romances. E ela o faz muito bem. Paloma parece, desde o princípio possuir essa afinidade (eletiva?) com a filosofia de Camus. A vida não tem sentido, ela é absurda por excelência e, simplesmente, não vale a pena viver. Camus, no Mito de Sísifo, começa com essa questão. Não interessa mais nada, se a vida tem cinco ou dez dimensões, se a alma tem cinco ou dez vida, nada disso importa, o que vale a pena saber é se essa vida, a única vida que temos a absoluta certeza de existir, vale a pena ou não.

É para colocar a vida no limiar do abismo que Paloma escreve os seus pensamentos profundos e movimentos do mundo. É desse ato de olhar para escrever, e para escrever é preciso olhar além do olhar às coisas, que Paloma consegue extrair da vida as congruências que a fará não mais desistir da vida. E o que percebemos da natureza da congruência é que para acontecer ela exige essa harmonia natural que a faz perpétua e frívola, no tempo exato de cada coisa. Significativa é a passagem em que Paloma encontra o THE movimento. Nele, ela encontra a sua lei que a protagonista perseguiu durante todo o romance, a perfeição de alguma coisa que valesse a pena viver:

"Eu, ao olhar aquela haste e aquele botão, intuí num milésimo de segundo a essência da Beleza. Sim, eu, uma pirralha de doze anos e meio, tive essa chance inacreditável porque, hoje de manhã, todas as condições estavam reunidas: mente vazia, casa calma, lindas rosas, queda de um botão. E foi por isso que pensei em Rosard, sem muito compreender no início: porque é uma questão de tempo e de rosas. Porque o que é bonito é o que captamos enquanto passa. É a configuração efêmera das coisas no momento em que vemos ao mesmo tempo a beleza e a morte.

Ai, ai, ai, pensei, será que isso quer dizer que é assim que temos de viver a vida? Sempre em equilíbrio entre a beleza e a morte, o movimento e seu desaparecimento?

Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem" (Pág.: 293)

E quão difícil é, e cada vez mais, habitarmos este instante em que todas as condições estão favoráveis para realmente captarmos uma epifania nas pequenas coisas...talvez numa viagem com cabelo ao vento conseguimos olhar para uma paisagem e sentir o movimento e seu desaparecimento com essa eternidade e frivolidade natural dá própria essência do tempo....talvez...

Se Paloma procura a congruência do mundo, a harmonia das coisas belas (Kant, na sua Crítica da faculdade de juízo diz que o belo é a harmonia, é o acordo tácito entre as nossas faculdades, a comunhão dos sentidos que o objeto sentido faz... - estou simplificando demais o Kant, coitado, deve estar socando o túmulo de tanta raiva de mim... mas é porque acho que esse texto vai ficar longo demais e você já deve estar se cansando dele...), Renée vive, mesmo sem saber, essa harmonia do destino, a congruência da beleza enredada em si.

Renée se oculta durante todo o romance. E o seu destino é trágico. Ela só se abrirá para a vida quando for tarde demais. Tarde demais não. Na congruência de sua existência. Ela faz valer a máxima de Paloma: "o que importa não é morrer, é o que está se fazendo no momento de morrer". Talvez toda a vida de Renée tenha se preparado, no ocultamento, para ser aquilo que foi. E, talvez, todo o nosso destino seja isso também: uma preparação para uma morte inescrutável, inescrutável não no acontecimento em si, mas na sua forma e no seu tempo. O nosso destino um pouco louco: se preparar para morrer da melhor maneira possível - mesmo no trágico, mesmo no absurdo - mas em harmonia com aquilo que você quer. A harmonia da busca mais perfeita que a harmonia do encontro. E a beleza do romance, e o nosso comprazimento com o destino de Renée é muito maior do que com o destino de Paloma. Paloma sabe disso: o destino de Renée é a percepção do seu movimento do mundo mais completo, do seu pensamento profundo ainda não escrito. O sempre no nunca que nos aponta a última página do romance.


Toda literatura é uma doença, todo livro é um livro doente, na voz de Antônio Lobo Antunes. No contraponto intrínseco, toda literatura é uma saúde, uma renascimento, uma tentativa, uma linha de fuga para sair do lugar em que se está. Movimento do ser pela escrita, pela invenção de personagens e dos afectos.

Não sei se A elegância do ouriço possui o estatuto de uma obra de arte. Mas é um livro elegante, repleto de frases espirituosas sobre a vida contemporânea, repleto de referências literárias e filosóficas, que recomendo ler com um lápis para sublinhar as passagens mais interessantes. Não sei se terá a perenidade dos grandes romances, creio que não, mas isso não tem a mínima importância para o agora em que se vive. O importante é o que fazemos enquanto vivemos na espera da morte inescrutável. Será que o que buscamos agora é suficiente para glorificar essa morte, não para os outros, mas para nós mesmos? Se morrêssemos lendo A elegância do Ouriço morreríamos felizes como Renée. Pela promessa de um destino anunciado, pela veia aberta de um destino permeado de arte e literatura que o próprio romance nos dá. Barbery nos dá a abertura para um mundo que para alguns pode ser bem novo. Para os que já o conhecem, reacende a chama para continuarmos nesse destino incinerário que é a vida inflamada de arte, de literatura, de filosofia, de vida, pois.

domingo, 13 de junho de 2010

8- Intensidade de si

Escrevo para não esquecer. Primeiramente, para lembrar a mim mesmo, acima de tudo, das verdades que a gente descobre ao longo da vida. Para evitar a fluidez do pensamento. Das coisas que nos atacam e fogem como se levadas por uma correnteza de um rio, a correnteza do tempo. Para evitar aquele estado de perplexidade que nos falou Fernando Pessoa no seu poema Tabacaria: "Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu." Precisamos cravar a palavra no papel, incialmente. Depois, cravá-la na alma - uma tatuagem no espírito? -, na existência, utilizá-la como se utiliza um martelo ou uma faca. Cortar a existência com a palavra. Martelar a existência com a verdade.

E quando digo verdade aqui a coloco no sentido dos gregos, do seu sentido de verdade. Não essa verdade que conhecemos, a da adequação do sujeito que enuncia com o objeto enunciado. Não. Martelar a existência com a verdade é fazer um tributo à memória e ao não esquecimento. A verdade dos gregos como Alethéia: o não esquecido. Aquilo que por ser verdadeiro deve permanecer na existência. Assim é que, primeiramente, com os poetas (inspirados pelas Musas, filhas da memória) e, depois, com os filósofos, a Alethéia era pronunciada. Pois então: porque gastarmos tempos falando do ruim, criticando o ruim, quando o que na verdade vale a pena ser celebrado com a potência de nossa voz é a excelência, o melhor, o mais belo? Aquilo que é ruim o próprio tempo faz questão de exilar. Aquilo que não é verdadeiro o próprio tempo joga no esquecimento. E quanto mais tratamos de falar do ruim mais ele ganha força pela inversão do nosso discurso. A negação, o esquecimento, é a nossa mais bela forma de criticar. Porém, não estou aqui para negar e sim para afirmar.

E o que não quero esquecer jamais? O que esse texto quer celebrar? O que quero dizer, primeiramente para mim, e que me falta, e que vi, e que quero tê-lo?

Além de amar a arte e a filosofia, amo os esportes. É dele que tiro a questão de hoje, afinando, então, o meu discurso com o de Deleuze, no qual é preciso ir para os espaços não filosóficos para extrair materiais filosóficos. Esportes então. E mais propriamente o tênis. E, mais especificamente, um tenista: Rafael Nadal.

Quem convive comigo sabe que sempre torci mais para o Roger Federer do que para o Rafael Nadal. E isso é muito fácil de explicar: a genialidade a gente aprecia logo de cara. O Federer é um gênio do tênis. O homem que faz aquilo que sabe simplesmente por dom. Tudo lhe é natural. O movimento flui. A técnica lhe é imanente. É fácil apreciar o tênis do Federer como é fácil apreciar o belo, a harmonia. Mas me rendi ao Nadal. Ele não é um gênio. A técnica não lhe é natural...a técnica lhe veio depois de muito trabalho...e é dele que quero extrair alguma coisa...

Ver uma partida do Nadal é ver uma batalha de fúria. A fúria do homem em nome de seu limite. Cada corrida é um aposta contra o fracasso. E o tenista corre atrás da bolinha, como um louco, como um touro (O Touro Miúra como o chamam), numa Odisséia sublime em busca do máximo de si. E é aqui que ele ganha o meu grande elogio: ele nos mostra o que é tentar sempre estar na permanente excelência de si. E, não é fácil, sei e afirmo por experiência e risco: não é fácil estar no auge de si o tempo todo. Mas ele é a excelência da intensidade de si. Não o vemos baixar a guarda mesmo quando perde o ponto. Não o vemos desistir de uma bolinha sequer quando arremeçada contra a sua quadra. Vemos o seu poder de concentração em cada momento do jogo. Um poder de concentração lúcido e quase inquebrantável. É difícil, muito difícil, manter a intensidade de si. E é, geralmente nesse estado de concentração e luta, não contra o adversário, mas contra si mesmo, que ele, no ponto exato em que o outro perde para si mesmo e que se perde, ganha de todo mundo.

Pensemos numa vida. Na nossa. Quando é que estamos no nosso limite permanentemente? Ok. Menos, bem menos...em um dia: durante quanto tempo do dia conseguimos manter a nossa excelência, dar à vida o melhor de nós, nos doar com toda a intensidade a um ato? Sabemos que muito pouco, muita coisa nos tira dessa intensidade, preguiça, distração, tédio, sei lá o que mais. E quando simplesmente ainda temos força. Quando o nosso corpo está apto a ser mais, a ser tudo que quisermos...nós mesmos matamos essa potência, nós mesmos damos à nossa vida uma morte quase imperceptível da potência, uma forma preguiçosa de nos habituarmos a morrer...

Talvez a diferença entre os grandes e os medíocres seja essa tentativa em nome da intensidade com que nos doamos àquilo que tomamos para nós como nossa ação. Essa capacidade de ultrapassar. Tirar, talvez, desse texto um objetivo modesto: chegar ao fim do dia, de todo dia, e dizer: cheguei no meu limite. Fui até onde deu naquilo que me dispus. Até onde o músculo se contrái e endurece pedindo descanso. É o descanso que deve falar por si e não nós por ele. Sabemos que não é fácil. Mas busquemos essa intensidade de si. Essa força, essa capacidade, a potência de existir.