segunda-feira, 29 de novembro de 2010

23- Os perseguidores

O biógrafo persegue Jonhy Carter: Cortázar persegue Charlie Parker: eu persigo Julio: você me persegue: e nós, todos, o que perseguimos? Uma linha tênue atravessa nossas biografias ainda que não saibamos para quê, para onde, em que direção vai, o momento em que ela deságua num abismo ou numa ponte. As nossas armas secretas continuam secretas embora haja sempre uma ligeira suspeita de que é sempre próxima a descoberta, e sempre próxima também a ilusão da  finalidade disso tudo.

Com que objetivo caminha uma melodia? Da mesma forma caminha o homem. E uma nota pode arrastar a memória para uma fotografia que perigosamente leva a um pássaro que automaticamente nos encaminha para o outro lado do mundo, outra memória, outro destino que pode até ser o mesmo. Uma melodia de jazz, um improviso, uma pausa de mil compassos: não creio que estou falando de algo bem distante do nosso mais íntimo cotidiano. 

O universo da literatura de Julio Cortázar nos leva exatamente para essas dobras do ordinário onde tudo pode ceder, descambar, iluminar. O homem que caminha na corda bamba e que consegue atravessar o picadeiro é quase sempre o destino mais improvável. A riqueza dessa travessia é se deixar balançar e fazer acontecer os mais improváveis movimentos. Sim, certo, a queda, a probalidade da queda, o seu ar trágico, o seu ar delicioso também. Nós, os perseguidores, gostamos de andar na corda bamba com outros propósitos. Quanto maior o movimento mais bonito o andar, quanto mais lúdico, melhor a queda.

Um pensamento é a maior distância entre dois atos. Ser um pouco com Cortázar ou ser como seus personagens nos dá o estatuto de seres afectivos. O que vem a ser isso que os personagens de Bergman  também conhecem bem, ainda que com outros desdobramentos? Há a ação, há a reação: e esse intervalo entre a ação e a reação é aquilo que propriamente chamamos de espaços de afecção. Afecção é o tempo intervalar entre um momento e outro onde as coisas podem girar como um furacão ou podem só esboçar um espasmo imperceptível de movimento. Uma ameba raramente (trata-se, claro, de um texto um pouco fantástico também) possui tempo para afecção enquanto age e reage na sua existência de capturar os seus nutrientes necessários. E Claro, os personagens de Cortázar escolhem (escolhem?) sempre a opção do furacão. Como Pierre do conto As armas secretas do livro homônimo. Ou mesmo como Jonhy Carter do conto O perseguidor, ou Oliveira de Rayuela. Entre beijar ou não beijar Michèle um mundo fantástico se elabora que continuar a ação como ela começou é quase impossível. Frase sintomática de Pierre: "Já aconteceu de você pensar de repente em coisas completamente alheias às que estava pensando? Você devia me dar alguma coisa, uma espécie de objetivador." Sim, trata-se de um ser afectivo.  E sim, tenho uma leve suspeita que sou também um deles.  E os personagens de Bergman, a câmera de Bergman, não há outra possibilidade senão a de perseguir o rosto, esse território onde a afeção se determina, fronteira impenetrável entre a próxima ação indeterminada que o rosto quase discrimina. E quem, quem, pode dizer que não foi ao menos afectivo uma vez ao dia quando olhou tal rosto de mulher ou foi atingido pela hesitante ação de uma buzina em plena luz de meio dia? Quem entre um êxito e outro não hesita, não treme a alma?     

Porém, a ação é irremediável. Não dá para morarmos nesse intervalo. Temos que escolher uma delas como encontro ou como fuga. Uma ação que determina a nossa luta, a nossa lupa, a busca.  O que o melhor saxofonista de jazz procura em suas notas, em seu virtuosismo? Jonhy Carter, Charlie Parker, eu (sim, toco sax), o que vibra em nós quando atravessamos uma harmonia com o mais alucinado sopro? O que há, afinal, no fim da melodia? Provavelmente nada. Talvez aqui esteja o cerne disso tudo. Não é necessariamente pelo meio que chegamos a determinado fim. Ainda que seja por essa instrumentalização da vida que somos obrigados a caminhar.

Da mesma forma: para que ler todos os bons livros do mundo, escrever todas as histórias possíveis e fantásticas, salvar todos os homems, proteger a nação, proteger o homem, filosofar, jogar, amar? O que buscamos no fundo disso tudo, desses gestos todos, nós, os perseguidores? Plenitude, sabedoria, riqueza da alma, paz, dinheiro, fama, cronópios, um olhar amoroso para sempre nos dizer o quê, o quê? Qual é essa imagem que buscamos e que nos redimirá diante de todo o nosso destino? Não se enganem, todo mundo busca uma imagem, um rosto, uma memória, um passado, um acontecimento que transfigure o seu destino. Quantos artificios podemos inventar para iludir aquilo que realmente buscamos, quantas formas podemos constituir a nossa alma para nos aproximar daquilo que realmente queremos. Quantas máscaras, quantas cores, nós, os camaleões da existência? E pode ser que mais próximos ficamos da coisa procurada quanto mais usamos máscaras, quanto mais despistamos os outros de nossa busca íntima, porque só nós mesmos é que podemos agarrar essa matéria informe de nossa busca. O destino é sempre da ordem do instransferível. O gozo de ser a sua própria melodia e a vibração que isso provoca no mundo. Daí todo gozo frustrado do plágio de buscar o que o outro foi, alcançou, existiu. A linha que nos une é tênue, mas o destino da linha é sempre o da tangente, obrigatoriamente.

Jonhy Carter passou longe, Cortázar pode ser que sim, e eu não tenho ainda a menor ideia do que persigo com tanta fúria no corpo através da arte e da filosofia e em todo o resto, em todo gesto. Mas amo perseguir essa coisa improvável que nunca encontrarei. E aqui não há sinais de pessimismo, porque não encontrar não é sinal de pessimismo.  E se encontrar o que procura, acalma-se, isso é incomunicável. 

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

22- Ne me quitte pas, Amélie...

O que será que me afeta quando penso em Amélie? E mais, o que pode ainda me afetar quando escrevo sobre ela? Simplesmente não resisto, beiro o confessional, ainda que não o deseje. Não, obviamente não é um amor platônico, longe disso, faz tempo que já o superei, mas posso chamar o que sinto por essa menina aí do lado com uma colher interrogativa de "amor crônico". Sim, crônico porque geralmente o esqueço. Mas ele volta. E ataca. E afeta. E dura. E como uma dor que só se potencializa no frio - semblantes de geleiras em minha alma? Não, não... - ela subverte o natural estado das coisas.

Não lembro qual foi o ano em que vi O fabuloso destino de Amélie Poulain, mas sei que depois dele há uma sucessão quase regrada de minha visita - anualmente, isso é certo - para rir e chorar nas suas expressões e cores, jogos e melancolias. Tento descobrir aqui uma lei: qual é o estado do meu espiríto que me evoca a retirá-lo da prateleira e assistí-lo com um transbordamendo que se recria cada vez mais. 

Ah, Amélie...talvez você funcione para mim como um arquétipo que busco na mulher amada e em mim mesmo. Um eterno jogo lúdico com a vida, a grandeza das pequenas ações, as pequenas invenções do pensamento, essa transcendência do destino que pode ser feita aos poucos e cotidianamente. Fazer com que um anão de jardim viaje para mostrar ao pai que é possível a vida até no imobilismo; jogar com a sua paixão um jogo de tabuleiro que se faz na rua para encontrar em fim a mulher amada; inventar amores possíveis, reconstituir fotografias, cartas, para se encontrar apenas um enigma desnecessário que só encontra a sua utilidade no ato mesmo da criação; devolver uma caixa com relíquias antigas de um menino para um senhor que também já não necessita dela. E aqui encontramos a verdade de Amélie e, se quiserem levar para o lado confessional, a minha também: nunca ninguém precisa de jogos, cartas, fotografias, anões, mas só essas "desnecessidades" é que contornam o todo que é necessário. O afeto é o halo que possibilida a visão do sol.

Não cesso de buscar esse halo, de inventá-lo, no mundo e em mim e, claro,  naquilo que chamo de amor. A minha paixão pela arte e pela filosofia torna essa halo cada vez mais intenso de cor e brilho. Tornar a arte a potencializadora dos meus próprios afetos. Ta aí, sempre quando me acho muito rústico, brutamontes, um ambicioso talvez, é que preciso de Amélie. A humildade das pequenas buscas é que talvez nos torne grandes.

Todo idealização é um erro, já sabem disso, não é? Frustração na certa, pode crer. Não quero idealizar Amélie, colocá-las em outras, nem dela extrair o maior destino de todos. Quero apenas percorrer o meu destino sem esquecer do nosso eterno jogo possível com a vida. Procurem os pequenos jogos, os pequenos prazeres, entrem num devir-pequeno para ver com o microscópio o nosso real tamanho. Mínimos, múltiplos, comuns, um, nenhum, cem mil. Podemos ser todos, nenhum, múltiplos, comuns, depende apenas do tipo de jogo que você quer travar com a vida. Ah, e sabendo sempre que ganhar ou perder é sempre provisório e o que vale a pena são os dados lançados e a batida acelerada do coração quando eles estão no ar. Lançar os dados, lançar os dados...

Ne me quitte pas, Amélie. Não esquecer do seu destino e do seu jogo, dos seus prazeres. São todos meus. Amélie é contra a imposição do ordinário que vai se encruando na nossa pele, nos nossos dias, no nosso modo de olhar. Eis a nossa lúdica batalha, repleta, no entanto, de gravidade. Novamente, escrevo para não esquecer.  

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

21- A morfina do cotidiano

A literatura ou a vida é sempre uma pergunta mal formulada. Aqueles que escrevem sabem melhor disso do que aqueles que leem. Não se trata de um fato. Todavia, não se trata também de uma fatia que cabe à literatura cortar para que desse pedaço emane um clarão. É sempre em tom de conciliação que a literatura trata da vida, mesmo que para isso o meio seja a revolta. Escrever é - sempre- um caso de revolta. Alguma leitura também.

"A vida é a arte do encontro embora haja tanto desencontro pela vida", já dizia o nosso Capitão do Mato, Vinicius de Moraes. O mesmo serve para a literatura. Quantos livros já abandonados no meio do caminho por não ser encontrado no momento certo? Da mesma forma os nossos amores inacabados? Quantas pessoas na hora errada, perfeitas talvez, mas na hora errada, no lugar errado. É muito mais no tempo que no espaço que os encontros se equivocam.

Esse ano está sendo de intensa busca pelo novo. Aqui, ainda que não seja essa a regra, o novo é necessariamente o atual. Já conheci muita novidade que nasceu muito antes de mim. Disso podemos concluir que também a novidade só se dá nessa coisa disponível que são os encontros. Então, procurei neste ano quem nunca li. E olha que a lista é gigantesca...

Mia Couto, Tatiana Salem Levy, Roberto Bolaño, Muriel Barbery, Raduan Nassar, e agora Philip Roth. Acho que escrevi sempre um post sobre esses seguintes autores. Porém, quem me provocou este ano no campo da literatura foi mesmo a Tatiana e o Bolaño. Chegou a vez do Roth.

A literatura que me interessa é a do sôco no estômago. Claro, há sempre o encantamento, caso, por exemplo, do Mia Couto. Porém, é sempre um sôco no estômago que busco na literatura. Tendência ao masoquismo? Não, não, meu caro, é somente para fazer latejar algum órgão que já está entorpecido pela morfina do cotidiano.  O que quero são porradas nos meus olhos para que deixem de ver as figuras tristes da vida que já morreram. O que quero são porradas na minha boca para que sintam pela ferida aberta um novo sabor da mistura do meu sangue com a vida. O que quero são porradas no meu coração para que palpite por alguma vida que ainda não conheço.

Então, autor bom é aquele que a gente lê uma obra e corre na livraria para comprar a próxima, quiçá, a bibliografia inteira e depois se virar com o cartão de crédito. Acabei de ler Indignação do Philip Roth e já quis ler todo o resto.

O mais incrível é ver como a indignação pode nascer da mais simples bondade, da incompreesão da retidão, da negligência por não perceber o objetivo do outro. Messner procura simples objetivos: escapar da Guerra da Coréia, escapar do pai obsessivo pela sua segurança, escapar da religião. Tudo o que ele não quer é ser incomodado numa segunda ordem já que a vida o havia incomodado antes. A história individual é sempre influenciada pelo destino do mundo, pela força dos acontecimentos históricos. A literatura de Philip Roth parece exatamente denunciar esse tipo de influência e a vulnerabilidade de todo homem comum, e no caso de Indignação, do homem jovem ainda em formação e toda a trepidação do destino que essa idade já deflagra. E a constatação é a do despreparo do homem comum em face dos grande acontecimentos históricos, dos acontecimentos coletivos. Claro, como sermos coletivos e ceder com primazia a um acontecimento coletivo se o que menos somos hoje é exatamente isso? O destino de Mesner é um destino de fuga diante do quase inevitável. Como não padecer ao destino coletivo em nome individual?  E como seguir alheio a qualquer destino, inclusive ao mais distante?

Não vou contar o destino do herói do livro. Que esses meus textos sirvam sempre para apontar, para induzir sempre um novo sôco, para que a cabeça mergulhe sempre mais fundo na imaginação de ser. A tarefa aqui é sempre de conduzir. Quase uma mão segurando uma outra mão. E, nesse caso, eu mesmo me conduzo para os outros livros do Roth. Ainda que não queiramos, o destino do homem americano é muito próximo do nosso. Sofremos de muitas mesmas angústias, nós, os ocidentais. Os outros livros do Roth parecem apontar para angústias que ainda não sabemos diagnosticar.

Vamos, contra a morfina do cotidiano? Qual o próximo Roth? O próximo autor? O próximo livro? Quantos desencontros são necessários para, enfim, encontrarmos? E nunca é questão de contabilidade, mas de contratualidade com o que se encontra. A validade nos interstícios dos interesses. É isso que promove o tempo e o espaço dos desencontros, a duração e a largura dos encontros. Claro, um coração largo para suportar e amar sempre ajuda. 

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

20- O outro pé do Mia Couto

Certamente, o outro pé do Mia Couto crava sua pegada no encantamento. O um, deve ser como os de todos, dorme, almoça, janta, calça sapatos, sandálias, se esparrama na areia, se fere com um prego, etc e tal. O outro não se deixa jamais abater. Antes, abate. Sem armas, sem guerras, com um artifício que não estamos acostumados a lidar. Sim, o outro pé do Mia Couto crava sua pegada no encantamento. E com ele, faz a gente caminhar para lá, pegada atrás de pegada.

Saí da leitura do livro O outro pé da sereia um pouco aturdido, meio sem saber o que dizer (ainda continuo sem saber). O nosso amigo moçambicano sabe nos arrebatar numa simples frase. Assim, como quem não quer nada, no meio da narrativa, ele solta a digníssima frase que nos faz gargalhar por dentro. São, tantas e tantas, que o meu livro está mais sublinhado do que limpo. A tentação de transcrevê-las aqui é grande. Até porque, preciso ocupar espaço para ocultar a minha falta de dizer. Será que resisto até o fim?

Mas, além das frases, o encantamento parece ser a matéria vital de que os personagens são feitos. E parece ser a matéria também da África que conhecemos no romance. Nunca estive na África, talvez seja o lugar cujo conhecimento mais me falta. Talvez faltem a todos. Talvez também seja o lugar mais propício para a poesia. A verdade que dela evola, que nos sopra nos ouvidos. Uma verdade muito mais bonita do que todas as outras, mais ingênua, mais feliz. Os personagens vivem de forma poética. E explicam o mundo através da poesia. Os ausentes, as fotos, a estrela, Nzuzu, Lázaro Vivo, Constança, Mwadia...quanta explicação poética para as durezas do mundo, as mortes, o abandono. Chegou a hora de colocar um pouquinho das frases para rechear o espaço com belas iguarias poéticas do nosso Mia (grande amigo que me ajuda a suprir a minha total falta de imaginação para abordá-lo...):

"A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. A viagem acontece quando acordamos fora do corpo, longe do último lugar onde podemos ter casa." (pág. 65)

"A saudade é a única dor que me faz esquecer as outras dores." (pág. 75)

"Salvar é uma grande palavra. E o amor é uma palavra ainda maior. Grandes palavras escondem grandes enganos." (pág. 93)

"Queremos ter o gosto de usufruir sem a responsabilidade de possuir." (pág.143)

"Só temos como nossos os filhos que são infelizes. Os outros, os que gozam de felicidade acabam se afastando em suave dança com a vida." (pág. 168)

"A saudade é uma tatuagem na alma: só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós." (pág. 192)

"A gente ama alguém que desconhecemos, casa com quem conhece e vive com uma pessoa irreconhecível. Às vezes, temos luas-de-mel, outras vezes, luas melosas. A maior parte do tempo, porém, são noites sem luar nenhum." (pág. 314)

Ta bom, né? Já deu para curtir um pouco da genialidade do nosso amigo africano, né? E digo: não é toda genialidade que é bem humorada. Então, andem depressa para correr atrás do pé do Mia... 

Conhecemos a África pela sua terra. Não, no Mia há sempre uma parcela de água a percorrer as difíceis rachaduras da vida. Na água os seres são praticamente eternos moventes, sem ponto de repouso. Podemos dizer que o pensamento poético é o mais aquoso de todos os pensamentos, a fluidez, o indeterminável, as ondas que nele habitam. A África é terra fértil para a poesia porque recheada de água. A água é uma boa arma para a rigidez de certos pensamentos cravados na terra. Água é poesia.

Acima de tudo, o autor da vez nos chama atenção para uma seguinte coisa: a verdade que a poesia inaugura.  Há a filosofia, a ciência, e nos acostumamos às verdades que elas possibiltam. Mas a verdade da poesia ficou distante da nossa realidade. Quem hoje se habilita a explicar algum fato com alguma poesia. Não, não é nem de longe de poetas e poemas que falo, mas de invenções, muito próximas, talvez, àquelas explicações ingênuas das crianças (que de ingênuas não tem absolutamente nada). O filósofo alemão, Walter Benjamin, sabe disso melhor que eu. Um exemplo, não do Benjamin, mas dessas crianças que ele evoca e que por acaso habitam também a minha vida:
- Júlia, você vai dormir de óculos?
- É Zé...é para enxergar melhor o sonho...   

domingo, 3 de outubro de 2010

19- Por que ler este homem?

Quase não parece se tratar de um livro dessa vez, ainda que o seja. Uma coisa são os livros, outras são sempre os homens. Nietzsche extrapola essa questão como parece fazer com tudo. Quem lê Nietzsche não sabe se lê puramente uma filosofia. Ecce Homo é a prova desse difícil limiar. Último livro do filósofo, produzido perto de sua grande crise, a obra é quase uma sangria, expiação, comoção, que deflagra uma última tentativa de ser bem compreendido. Um pavor de fazerem de sua filosofia, e dele mesmo, algo inapropriado.

É um ótimo livro para se iniciar o trato com a sua intragável filosofia. Perigosamente, é claro. A obra alterna momentos de grande lucidez e grande desvarios que já apontam o que viria a seguir em sua vida. Mas ela é um retrato da trajetória de seu pensamento. E aqui vemos como é tênue a linha entre homem e obra, doença e saúde. O livro é um elogio a saúde através da crise.

Ninguém foi mais pessoal do que Nietzsche ao escrever filosofia. A linguagem inflama, queima, faz a gente sair do livro. A escrita própria para encostar na pele da vida, de nós mesmos. Através dela sabemos o quanto pode uma escrita e o quanto podemos. O quanto somos também inflamáveis. Perigo de ser ler Nietzsche: ele pode fazer a gente queimar antes da hora. E o filósofo já sabia que qualquer fanatismo seria prejudicial, inclusive para lê-lo. Um fanatismo que ele não tinha e que não desejaria que ninguém tivesse. É sempre cauteloso ler Nietzsche com um instintor de incêndio ao lado para poder se queimar na medida certa. Um bom exercício para escritores e leitores de plantão.

Seria totalmente trágico uma tentativa de abordar toda a temática do livro aqui. Plural, ele não se deixa pegar em qualquer forma. Frases que brilham como o sol, um clima de verão em pleno inverno. Uma luta constante com aquilo que se é. Não é leviano o subtítulo do livro: como alguém se torna o que é. Tornar-se o próprio destino é tão difícil como se equilibrar na corda bamba. Isso Nietzsche sabe muito bem. A duras penas tornou-se aquilo que foi. Mesmo que para isso tenha sido ou desejado por tanto tempo aquilo que depois lutou contra, a filosofia de Schopenhauer, a música de Wagner, o romantismo, o idealismo.

Nietzsche é contra tudo aquilo que diminui a força da vida. A vida é vontade de potência. Não é o homem que possui a vontade de potência, é a vida.  Daí a sua luta contra a metafísica, o idealismo, o cristianismo. Para ele, os valores criados por essas ideias retiram da vida a sua força e a força do homem.O ressentimento não é senão isso, vontade de que a vida seja outra coisa que não ela mesma, que nela não haja dor, drama, tragédia. Com isso, se entende a aproximação de Nietzsche com Dionísio, a divindade que não cessa de nascer e morrer, sempre renascido, sempre dolorido, mas que nunca sente vontade de não nascer jamais. A tragédia grega inicia com os Ditirambos, cantos em honra a Dionísio, esse ser eternamente renascido. O herói trágico é aquele que aceita o seu destino. Que não desonra a vida por ela conter tudo. O homem desonra a vida quando deseja eliminá-la, purificá-la, em nome de uma outra realidade, de uma outra ideia. A ideia do eterno retorno é um desdobramento que nasce já no Nascimento da tragédia.  

A filosofia de Nietzsche é uma saúde, penosa talvez, no meio de tanta crise. Mas Nietzsche não seria quem é se não aceitasse a sua própria crise. A sabedoria de Nietzsche é aceitar a vida. Fácil, né? Nada. Muito difícil. Não cessamos de criar artifícios para nos livrar da dor, do medo de viver. A filosofia sabe disso. Não é porque sou filósofo que me abstenho de também criar artifício. Sou antes também um criador de artifícios. O difícil é não criarmos artifícios para evitar a dor. Sempre nos acolhe um certo medo mórbido que nasce dentro da gente. Ainda que temida é a dor que nos dá o conhecimento que não temos. Deleuze em sua filosofia fala que o pensamento só se dá na coação, quando forçado a ultrapassar. A natureza da dor é ultrapassar.

Ler Nietzsche é uma saúde. Uma saúde que emerge do trágico. Sabemos ser trágico e tirar dessa nova relação com a vida uma nova perspectiva de saúde? No Ecce homo, o filósofo vira e mexe anuncia-se não como filósofo, mas como fisiologista, interessante, não? A proximidade com o corpo, a proximidade com os instintos, com a natureza. A filosofia de Nietzsche é uma filosofia que diz SIM. Mesmo que para isso tenha que criticar, que dizer muito Não àquilo que desmerece a vida. É dele a maior crítica aos nossos últimos dois mil anos. A filosofia de Nietzsche é um grande renascimento. Quem tem coração bastante para isso? É o que pergunta Zaratustra....     

terça-feira, 28 de setembro de 2010

18 - Entre um pré e um pós


É chegada a hora. Não cabe mais sentir o cheiro de pré-clímax na sua própria vida. Esse ar é aquele ar monótono onde se espera, o que quer que seja, sentado esparramado no sofá a olhar o relógio, segundo após segundo, arrumado com o seu melhor terno, pronto (para o quê?), tempo atrás de tempo. E no final do tempo, onde não há click, campainha ou chegada, retorna-se para o fundo do quarto, o fundo de si, o fundo em si, o fundo. Tempo atrás de tempo. E no final do tempo. E no final do. E no final. E no. E.

Cheiro insuportável esse onde a vida espera. Irrespirável e impossível. O mesmo cheiro talvez do pós-clímax. Onde tudo já foi, onde o mirar para o passado é mera sombra, no precipício do sonho, na corda bamba, finíssima, daquilo que foi real. Pós e pré são as duas faces de uma moeda que ninguém quer. E, no entanto, é aquela em que todos (sim, todos, eu, você, quem você ama, quem você ama, etc.) cunham com a mais pura matéria do tempo presente. Estamos sempre entre um pré e um pós. E nenhum dos dois vale realmente a pena.  

É chegada a hora de enfrentar os grandes. E cada um que coloque os seus gigantes onde lhe cabe. Os meus, por exemplo, podem ser os livros (exitem outros), os grandes autores que renego na mera desculpa de nunca estar pronto para enfrentá-los devidamente. José Maurício X James Joyce. David X Golias. Só que o embate nunca houve porque o David nunca estava pronto. Sabedoria de David: David não esteve pronto em hora nenhuma, inclusive na hora que o sangue do inimigo lhe espirrou na cara. E quantos gigantes fazemos crescer durante a vida porque somente nos distanciamos dele? A ilusão de ótica se dá pelo avesso: quanto mais perto menor o gigante. E, quantos não estão nascendo dentro da gente como doença, medo, vazio, alimentados por essa temeridade do futuro e do passado (sim, também do passado meus amigos...) de não sermos quem somos no momento em que somos? 

Porque sofremos de uma tendência para o não-ser, negativamente. O não-ser pode ser o plural que nos habita, esse é positivo, como possibilidade. Mas essa tendência ao não-ser é apenas o lado obscuro do próprio não-ser que se configura como espera. Potência insone que não se desenvolve. Não porque não habita um fruto, mas porque espera que esse fruto esteja pronto para nascer. Eu mesmo nasci de 7 meses. Totalmente inacabado. Porque não levar essa incabamento como a verdade até o fim?

Não corremos risco nenhum de morrermos de indigestão por devorarmos toda a vida que se apresenta para nós. Não corremos o risco de morrermos de tédio também. Porque a própria natureza da vida é sempre mais plural do que a nossa para a pluralidade. A vida é mais inesgotável do que nós mesmos. O tédio só é um problema para aqueles que não sabem ver ou para aqueles que partem para a fome sempre com a mesma vontade de comer. Até a vontade mais rasteira ganha em ebulição na aposta pela diferença, na ótica de se entrar no mesmo prazer por vias diferentes. O pré-clímax é uma ideia que deve morrer pelo caminho. O pós-clímax é uma ideia que tende a jamais se realizar. O nosso drama é que ambas permanecem mais vivas do que nunca dentro da gente. Vitalizadas pelo medo. Medo de perder a vida, medo de não ter a vida. Mas a vida só se tem no momento em que é vivida e nada mais. Quando se vive já se perde e já não se tem. E sempre na certeza de que, concomitantemente, ganhamos coisas novas para novamente perder. O medo do futuro é uma ilusão que o presente evapora. O medo do passado é um pesadelo que o presente acorda.     

Digo isso porque é chegada a hora. A hora de não mais ter hora. Momento do enfrentamento com o que somos. Disso que somos. O melhor que conseguimos ser sem o real enfrentamento. Porque até a espera cansa do seu próprio cheio nauseabundo. E você não vai querer que a sua vida seja lembrada por esse cheiro de espera, não é? Vai? Repito: essas palavras sempre valem primeiramente para mim. Essas palavras sempre se parecem com algum tipo de espelho onde, no confronto, vou descobrindo e revelando uma nova imagem de mim mesmo. Sei que é chegada a hora de enfrentar-me. Para me tornar maior. A dignidade de enfrentar a si mesmo, os nosso limites, é sempre o combate mais belo que travamos com a vida. É chegada a hora. É chegada a. É chegada. É.

(A imagem não corta a cabeça do inimigo, mas sim a própria cabeça que se renova como um sempre diferente rabo de lagartixa todas as manhãs...)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

17- Íntimos do movimento: potência e ato.


A amplitude de um conceito é medida pela vida que é capaz de inaugurar. Um conceito jamais perde a sua potencialidade, a capacidade de atuar nos espíritos mediante a força criadora de que é composto. Ele está presente como um halo em volta do sol, disposto para aqueles que olham para além do centro iluminado. Conteúdo que se desenvolve na medida em que o continente se abre. Somos nós que permitimos a força de atuação de um conceito. Mas é importante sempre dizer que um conceito é, acima de tudo, invenção, criação, antes de ser real. É mais que reflexão e entendimento. Não é uma adequação entre uma ideia e o real. Um conceito só funciona realmente quando o pensamos como criação.

Ando pensando muito no conceito de Ato e Potência de Aristóteles. Somos feitos de matéria e forma. A matéria diz respeito a potência, a forma ao ato. A matéria espera a forma para ser real, é a forma que atualiza a matéria. Mas é esta quem determina a potencialidade da matéria, é ela quem anuncia os limites para que a forma atue. Até onde a forma vai depende, exclusivamente, da matéria, mas a matéria só alcança sua determinação com a forma. Não existe uma sem a outra. Mas, para que isso tudo?

Porque não deixamos de ser isso: potência e ato. O movimento entre um e outro. Necessariamente entre um e outro. Não paramos de movimentar essa matéria de que somos feitos em novas formas de ser. O devir é esse movimento eterno entre potência e ato em atualizações necessárias e voluntárias. Na natureza, irremediavelmente, necessária. No homem, necessárias e voluntárias. E para que todas essas atualizações?

Aristóteles na Metafísica explica mais ou menos assim: toda substância, todo ser, toda matéria e forma, só muda porque deseja a perfeição. O movimento é da ordem do desejo. E o desejo é da ordem da perfeição. Além disso, todo movimento se dispõe em nome da causa final. Nos movimentamos porque almejamos o nosso limite, o nosso máximo, a nossa perfeição de ser. A inércia ou a apatia é a corrupção dessa perfeição, debilidade do ser que, já no auge de sua forma e matéria, não consegue manter a total potencialidade revelada no ato puro. O que queremos em cada ato nosso é alcançarmos esse ato puro que um dia poderemos fazer. Ato em que estariamos todo. Alguém já conseguiu?

A contraposição, a ideia que nos serve de exemplo e de limite é o Motor Imóvel aristotélico. O Motor Imóvel é o divino, pleno, que está no meio do universo. Ele é o ato puro, a realização de todas as qualidades. Imóvel porque sendo pleno não deseja mais nada. Mover-se para que?

Fica claro o quão longe estamos desse Motor Imóvel e o quão próximos ficamos íntimos do movimento. Essa intimidade com aquilo que nos é natural e que no entanto não se realiza por inteiro. A vida é essa abertura possibilitada pelo movimento que não conseguimos romper.Um conceito só tem validade quando inaugura uma possibilidade para extrapolarmos o nosso ser. Um conceito é essa chave para abrirmos a vida. Vamos para o movimento? Vamos, cada vez mais lúcidos dele, de seu sentido, de seu gosto?

E o quanto há de matéria sem forma em mim, de forma na espera da matéria. E você leitor, o quanto há em você de irrealizável?