domingo, 13 de junho de 2010

8- Intensidade de si

Escrevo para não esquecer. Primeiramente, para lembrar a mim mesmo, acima de tudo, das verdades que a gente descobre ao longo da vida. Para evitar a fluidez do pensamento. Das coisas que nos atacam e fogem como se levadas por uma correnteza de um rio, a correnteza do tempo. Para evitar aquele estado de perplexidade que nos falou Fernando Pessoa no seu poema Tabacaria: "Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu." Precisamos cravar a palavra no papel, incialmente. Depois, cravá-la na alma - uma tatuagem no espírito? -, na existência, utilizá-la como se utiliza um martelo ou uma faca. Cortar a existência com a palavra. Martelar a existência com a verdade.

E quando digo verdade aqui a coloco no sentido dos gregos, do seu sentido de verdade. Não essa verdade que conhecemos, a da adequação do sujeito que enuncia com o objeto enunciado. Não. Martelar a existência com a verdade é fazer um tributo à memória e ao não esquecimento. A verdade dos gregos como Alethéia: o não esquecido. Aquilo que por ser verdadeiro deve permanecer na existência. Assim é que, primeiramente, com os poetas (inspirados pelas Musas, filhas da memória) e, depois, com os filósofos, a Alethéia era pronunciada. Pois então: porque gastarmos tempos falando do ruim, criticando o ruim, quando o que na verdade vale a pena ser celebrado com a potência de nossa voz é a excelência, o melhor, o mais belo? Aquilo que é ruim o próprio tempo faz questão de exilar. Aquilo que não é verdadeiro o próprio tempo joga no esquecimento. E quanto mais tratamos de falar do ruim mais ele ganha força pela inversão do nosso discurso. A negação, o esquecimento, é a nossa mais bela forma de criticar. Porém, não estou aqui para negar e sim para afirmar.

E o que não quero esquecer jamais? O que esse texto quer celebrar? O que quero dizer, primeiramente para mim, e que me falta, e que vi, e que quero tê-lo?

Além de amar a arte e a filosofia, amo os esportes. É dele que tiro a questão de hoje, afinando, então, o meu discurso com o de Deleuze, no qual é preciso ir para os espaços não filosóficos para extrair materiais filosóficos. Esportes então. E mais propriamente o tênis. E, mais especificamente, um tenista: Rafael Nadal.

Quem convive comigo sabe que sempre torci mais para o Roger Federer do que para o Rafael Nadal. E isso é muito fácil de explicar: a genialidade a gente aprecia logo de cara. O Federer é um gênio do tênis. O homem que faz aquilo que sabe simplesmente por dom. Tudo lhe é natural. O movimento flui. A técnica lhe é imanente. É fácil apreciar o tênis do Federer como é fácil apreciar o belo, a harmonia. Mas me rendi ao Nadal. Ele não é um gênio. A técnica não lhe é natural...a técnica lhe veio depois de muito trabalho...e é dele que quero extrair alguma coisa...

Ver uma partida do Nadal é ver uma batalha de fúria. A fúria do homem em nome de seu limite. Cada corrida é um aposta contra o fracasso. E o tenista corre atrás da bolinha, como um louco, como um touro (O Touro Miúra como o chamam), numa Odisséia sublime em busca do máximo de si. E é aqui que ele ganha o meu grande elogio: ele nos mostra o que é tentar sempre estar na permanente excelência de si. E, não é fácil, sei e afirmo por experiência e risco: não é fácil estar no auge de si o tempo todo. Mas ele é a excelência da intensidade de si. Não o vemos baixar a guarda mesmo quando perde o ponto. Não o vemos desistir de uma bolinha sequer quando arremeçada contra a sua quadra. Vemos o seu poder de concentração em cada momento do jogo. Um poder de concentração lúcido e quase inquebrantável. É difícil, muito difícil, manter a intensidade de si. E é, geralmente nesse estado de concentração e luta, não contra o adversário, mas contra si mesmo, que ele, no ponto exato em que o outro perde para si mesmo e que se perde, ganha de todo mundo.

Pensemos numa vida. Na nossa. Quando é que estamos no nosso limite permanentemente? Ok. Menos, bem menos...em um dia: durante quanto tempo do dia conseguimos manter a nossa excelência, dar à vida o melhor de nós, nos doar com toda a intensidade a um ato? Sabemos que muito pouco, muita coisa nos tira dessa intensidade, preguiça, distração, tédio, sei lá o que mais. E quando simplesmente ainda temos força. Quando o nosso corpo está apto a ser mais, a ser tudo que quisermos...nós mesmos matamos essa potência, nós mesmos damos à nossa vida uma morte quase imperceptível da potência, uma forma preguiçosa de nos habituarmos a morrer...

Talvez a diferença entre os grandes e os medíocres seja essa tentativa em nome da intensidade com que nos doamos àquilo que tomamos para nós como nossa ação. Essa capacidade de ultrapassar. Tirar, talvez, desse texto um objetivo modesto: chegar ao fim do dia, de todo dia, e dizer: cheguei no meu limite. Fui até onde deu naquilo que me dispus. Até onde o músculo se contrái e endurece pedindo descanso. É o descanso que deve falar por si e não nós por ele. Sabemos que não é fácil. Mas busquemos essa intensidade de si. Essa força, essa capacidade, a potência de existir.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

7- Um texto para quem precisar

Esse texto nasce com semblante de auto-ajuda ainda que não queira sê-lo. Mas nasce com o intuito de ajudar alguém. Quem? Eu mesmo? Uma amiga minha? Ou alguém que simplesmente o lê e que precise. Ainda que não diga nada de novo. Ainda que diga o que todo mundo sabe. Ele nasce.

E uma revelação me interrompe a escrita: mais importante do que ler é ler o que se precisa na hora certa. De nada adianta ler o melhor romance do ano, o melhor livro da história, ler Clarice Lispector ou Kafka, Marcel Proust ou James Joyce, se a sua alma não pede exatamente aquele material. O sucesso dos livros de auto-ajuda se inserem nesse contexto, ainda que não digam nada de novo, que digam o que todo mundo sabe, eles atingem a pessoa no seu nervo, no exato ponto em que necessitava, ainda que raso, rasteiro, ainda que nada de novo, ainda que nenhuma verdade, nenhuma epifania.

Li grandes livros que me diziam grandes verdades. Porém, em alguns casos, elas não me atingiram como deveriam. E é quando penso que sou um mal leitor. De vez em quando. Quando a pressa me domina, quando a fúria de terminar ultrapassa a fúria de saber e de fruir. Mas, constantemente, não. E mais quando sei que aquilo que estou lendo é aquilo que preciso. O primeiro passo de um grande leitor é saber qual a matéria espiritual que necessita e não lê por modismo ou para se livrar do livro. Mas como saber senão no ato da leitura? Toda leitura é uma aposta. E para além dos livros: toda escolha é uma aposta que só dá a garantia da vitória ou da derrota depois de devorada. Acontece de precisarmos de outra coisa depois que já estamos no meio do caminho de uma leitura onde o diagnóstico da doença foi certeiro? Acontece. Geralmente mudamos de livros. Mas o grande ganho parece ser quando a leitura, depois da excelência da cura, continua a exercer sua influência tenuamente, vagarosamente, no imperceptível. Dando-nos a sensação de que a dor já foi sanada. Mesmo assim, devemos continuar a ler: como um antibiótico que devemos tomar os sete dias depois de já termos curado a nossa dor de garganta. Os meus maiores ganhos aconteceram quando, já depois de terminada a leitura, do livro empoeirado na prateleira, alguma imagem ou verdade me assalta. Ai vi que a leitura foi correta. Quando ela inverteu o jogo e transbordou o tempo.

Não queria dizer nada disso nesse texto. Queria ajudar alguém de outra forma. Dizer o óbvio: que somos energia, que temos de aproveitar o tempo dos nossos átomos se condensaram em nós para existirmos ao máximo. Que depois eles voltam a se embaralhar, a se perder em outros átomos, a fluir a sua energia de outra forma, a voltar para o todo de onde partiu. Mas agora é o nosso tempo: matéria e energia em nós. Porque não celebrarmos isso que somos agora, nesse átimo de tempo de individualidade, para devolvermos ao mundo um pouco dele mesmo, transformado? E aqui me surge a imagem da água-viva (E sim, uma das formas de se entender o romance da Clarice): ela é 90% (ou alguma coisa por ai) feita da mesma matéria do oceano...mas por um segundo ela se desgarra, se condensa...e a sua compleição se difere de tudo o mais...e é nesse espaço que a vemos se movimentar...e é nesse tempo que ela queima...até voltar...até ser novamente água...pura água...Saber sim que somos individuais. Saber sim que somos um sopro de vida. E saber aproveitar isso. E saber também se espalhar e nadar nessa imensidão do mundo. Saber que somos também uma parte do todo e o todo uma parte de nós: água-viva. E vale a dica para, quem precise, ler o romance homônimo da Clarice Lispector.

Bem, ainda que nada de novo. Ainda que nenhuma nova verdade. Um texto para quem precisar.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

6- De um certo platonismo no amor

E ainda dizem que a filosofia está distante da realidade. Distante é talvez a influência de um certo pensamento que não cansa de agir sobre a realidade. Assim, pois, pensamos e sentimos de forma menos originária do que acreditamos. Um exemplo?
Quem se atreve a dizer que nunca amou alguém platonicamente? No que consiste isso que tão comumente chamamos Amor Platônico e que não cessa de nos arrebatar nas nossas experiências afetivas? Que diabos tem a ver o filósofo grego com esse sentimento que agora pulsa em mim como verdade e particularidade quando penso na mulher amada? E eis Platão no meio do meu amor, num intervalo de quase 2.500 anos, com a cara mais descarada do mundo, segurando vela para nos iluminar...e que sombra ela proporciona...

Geralmente dizemos do Amor Platônico o mais latente, aquilo que salta logo aos olhos quando pensamos num ser que ama platonicamente, ou seja, um sentimento de exagero. Exagero avassalador, desmesura de um sentimento que não tem forma, que não cabe dentro da gente. Sofremos, choramos, mal comemos, mal dormimos, mal vivemos. E o pensamento e o coração imersos numa certa fúria de sonhos e idéias. Como diz Comte-Sponville, "Aliás, o que é estar apaixonado senão cultivar certo número de ilusões sobre o amor, sobre si mesmo ou sobre a pessoa de pela qual se está apaixonado?" É o exagero que marca, é uma dose muito alta de romantismo, o Amor Platônico. Mas por quê o exagero ao pensar no ser amado? E aqui está o rasgão que Platão faz na realidade. Só exageramos no amor porque idealizamos.

No banquete, obra do filósofo onde se discute o amor, existem duas vozes que repercutem: Aristófanes e Sócrates. Aristófanes reside em nós quase como domínio público. Quer ver? Ele aparece no Banquete nos contando um mito de como éramos: "Outrora nossa natureza não era como é hoje, era bem diferente. Cada homem constituía um todo, de forma esférica, com costas e flancos arredondados, tinham quatro mãos, o mesmo número de pernas, dois rostos totalmente idênticos num pescoço perfeitamente redondo, mas uma cabeça única para o conjunto desses dois rostos opostos um ao outro; tinham quatro orelhas, dois órgãos de geração e todo o resto e, conformidade." Eram três os gêneros da espécie humana: os machos, contendo dois sexos masculinos; as fêmeas, dois sexos de mulher; e os andróginos, com o sexo masculino e feminino. A força dessa espécie era tão imensa que resolveram desafiar os Deuses. Como punição para o desafio, Zeus os dividiu ao meio num corte vertical." Desde então, o destino é encontrar a nossa parte separada que irá nos completar perfeitamente. Encontrar a nossa alma gêmea, a nossa cara metade, que nos devolverá o êxtase de sermos Um novamente, total. O amor para Aristófanes seria essa completude,uma fusão, esse júbilo ao encontrar o ser que desde sempre é, também, nós mesmo.

Platão, na voz de Sócrates, refuta Aristófanes. O sentimento de amor, esse com que buscamos a nossa metade, não pode ser nunca completude. É incompletude. Só buscamos no outro o que nos falta. Só desejamos o que não temos. Se estamos sempre fissurados, esse sentimento que nos movimenta em direção ao outro é o Amor. Amor por nós mesmos, amor por aquilo que não somos e que temos que reconstituir. Mas, na busca por essa totalidade, a própria busca é o sofrimento, mas um sofrimento ligado a um certo prazer de conquista, de sonho. Porém, Eros nunca está saciado.

O ponto comum entre as duas teorias está talvez na idealização. Seja sendo completude ou incompletude, o que nos move é uma certa idéia, um certo ideal que temos de alcançar através da pessoa amada, através do amor. Um certo paraíso. E eis aqui também o mito da caverna para reforçar a grande luta de Platão em nos conduzir para um mundo Ideal. O homem libertado de seus grilhões onde só via sombras, agora vê a luz, vê a verdade das coisas. O amor platônico não seria um estado que buscamos onde vemos um mundo com mais verdade, com mais clareza,com mais harmonia, onde tudo é menos vacilante, como a sombra que não cessa de oscilar, do que é? A busca pela completude, essa beleza solar de tudo, não seria um estado de imutabilidade onde reinaria a paz total?

Não podemos deixar de elogiar a grande alegoria que faz Platão e o caráter revolucionário desse mito. O homem libertado, o homem que não se permite terminar a busca de um mundo melhor - Ideal - é o elogio que Platão parece fazer. E talvez seja essa a imagem mais forte que retemos dele, do homem que não se aliena numa visão com antolhos, que olha pros lados e pra trás, sempre almejando subverter o que está posto. Bem sabemos como precisamos idealizar nos campos de nossa realidade que já estão secos e infrutíferos.

Toda idealização é uma violência contra o real.

Mas me parece que, nos domínios do amor, essa idealização do outro soa um pouco desrespeitosa. Nesse rasgão que Platão faz na realidade, pela idealização, ele deixa de legitimar aquilo que existe por si mesmo como o estrangeiro da nossa idealidade. Porque o outro não pode possuir a sua própria força, como algo que existe por si e para si? Uma sombra também existe para si e está tão impregnada de verdade como a luz. Nessa nossa busca do amor idealizado não desejamos o outro como ele é, nos seus devires e singularidades, mas como representação de nós mesmos, do ser ideal que um dia montamos para nós. E quantos amores já perdemos nessa idealização! Quantos! O outro para nós carece de ser ele mesmo! O outro é sempre violentado em nome de uma idealidade! E o quanto de real matamos, e quantos outros já matamos, quantas realidades! A idealidade pelo que violenta também impossibilita outras realidades que podem nascer fora de nós.

E o ser platônico no final de sua idealização frustrada - o outro por mais perfeito que seja frustra a idealização... - no fim da relação que não deu certo ainda diz com um certo ressentimento: você não era como eu imaginava, me decepcionei com você, pensei que você era uma coisa mas é outra...

O outro me parece ser o lugar que não permite fincar bandeira. O outro não se deixa dominar. E podemos amar a outra pessoa assim como ela é? Sim. O outro, indeterminado, alheio ao que conhecemos, novo, singular, real (mais real do que qualquer idealização) nos permite um júbilo pelo simples fato de exitir."Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa", como nos lembra Pessoa. A paissagem que não possui o homem e nos encanta. Inexorável e apaixonante.

E o amor que é também da ordem do real não se permite idealizar. O amor é sempre outro. O outro é o real que violenta a idealização.

domingo, 16 de maio de 2010

5- Um destino absurdo

Para H.C.G.


Este texto é inspirado em Borges. Na possível coerência que pode haver entre as paixões. Além de seus livros, a literatura nos une. E o destino absurdo é esse: dedicar-se à literatura de forma dilacerada como se ela fosse a pedra fundamental da humanidade, àquilo sem o qual ninguém consegue viver. Engano. Todos conseguem viver sem a literatura, inclusive eu que consigo ficar plenamente bem (uns 5 dias?) sem ela. Quando há gente, quando há felicidade, quando há amor, quando tudo parece fazer sentido.

Mas logo um pequeno comichão no organismo, se é no cérebro, no coração, ou no esôfago, eu não sei, parece projetar uma necessidade. Será que tudo pode ter sentido pleno por muito tempo? O quanto dura uma felicidade? E este sol, este mar, este amor? Existem? O que é verdade nisso tudo? Será isso, só isso? E ai, amigo ou amiga, leitor ou leitora, o mundo escurece (ou clareia!) e me sinto impelido para um novo tipo de encontro, uma velha amizade, um aconchego que nasce justamente da batalha, do tédio, da raiva, da injustiça, da desesperança...e eis a literatura.

O certo é que eu não consigo viver muito tempo sem ela, sem a filosofia, sem os livros, sem a sensiblidade que ela evoca. E o destino, no limite do desejo e do conhecimento, parece se tornar absurdo... Porque um livro não basta. Conhecer um mundo diferente é pouco. E um mundo quando nasce se desdobra, quem lê sabe. Não apenas nos contentamos em ler um livro de um autor, mas todos. E um autor também não basta. É preciso uma população inteira, uma época, uma tradição. E, assim, de uma hora para outra estamos envolvidos no nó da biblioteca, na esteira de todos os livros possíveis, de todos os conhecimentos dos mundo.

Claro, o conhecimento não basta. Só conhecendo todos os afetos, todas as formas de sentir, é que poderemos nos sentir saciados. Não conseguiremos. Então o nosso destino será esse mesmo, absurdo, de ler e reler tudo, de sentir e ressentir, de amar e de reamar tudo que na vida transborda ou chora, tudo que dói e não dói, tudo que é e não é.

E para que tudo isso? Para que sentir tudo? Para que saber tudo? O que é que conseguimos fazer com isso tudo? O mundo melhora com essa nossa sabedoria? E ainda, e mais grave ainda, nós melhoramos? Ou será que ficamos é mais confusos em existir nessa profusão de coisas que nos atingem por nosso própria vontade (pois basta não querer ser atingido e viver na paz, simplesmente...e sabemos que isso é bem real, talvez mais real que todos nós, leitores)? No final das contas, para que ler?

Talvez, seja o nosso destino o pior de todos. Mas nós o escolhemos.Ou, ao menos, não conseguimos sair dele facilmente. O que duvido é se realmente queremos sair dele. Se essa desilusão que sentimos no trajeto é mesmo uma desilusão ou uma provação mais sincera das coisas do mundo, na exigência mais terna e lúcida, de se lidar com o que a vida pede: a diferença, a dor, o fenecimento, a morte, a desilusão, o bruto, e tudo o mais que na paz não sentimos...

Não sei o que ficará de nós. Mas a cada livro que abrimos, a cada página virada, é uma tentativa de ser melhor, de aprender, de entender que uma existência é pouco para sentir tudo, que precisamos do outro, mais do que nunca é o outro que nos ensina. Na tentativa desesperada de aprender a sentir, e de tentar dar forma ao que sente (seja na literatura, na filosofia, na pintura, na musica, enfim, na arte) ele tenta reter uma parte da vida. Eis o seu, e o nosso, projeto humilde, a sua ambição irrisória diante do movimento do mundo, do transbordamento das coisas.

Seja lendo ou escrevendo o que tentamos é nos igualar, ciente da impossibilidade, à grandiosidade da vida, sempre maior do que nós.

Se conseguimos com isso melhorar o mundo, não sabemos. Outros também tentam por outras vias. Iguais na glória ou no fracasso.

Mas que ao menos, desse projeto, saia uma pessoa mais digna, mais sincera, que, se não conseguir através da literatura e da filosofia consertar um pedaço do mundo e do outro, o mínimo que seja, consiga, pelo menos, consertar um pouco de si, um pedaço, o mínimo que seja.

Ao destino absurdo então. Uma possível justificativa dessa vida...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

4- O que acontecerá em 2666?


A primeira coisa que tenho a dizer é que eu estarei vivo até que este dia chegue (assim espero...). Já chegou para os outros, mas para nós brasileiros a previsão é que chegue no dia 20 de maio. Bem, não se trata de uma nova profecia e nem do próximo fim do mundo. Trata-se do romance póstumo do escritor chileno, Roberto Bolaño, que a Companhia das Letras lança no fim do mês.

A minha expectativa é grande, imensa. E isso porque sou um leitor ávido de romances. E esse é grande, é enorme, e além do tamanho (856 páginas, mas as edições estrangeiras colocam o livro com mais de mil), a previsão é de que seja realmente um romance magistral, daqueles romances de vanguarda na linha de Proust e Joyce. É certo que estamos carentes de novos romances paradigmáticos. A impressão que temos é que nada realmente de mágico acontece na literatura. E a questão da genialidade de Bolaño parece suprir muito mais a carência de uma expectativa do que de um fato consumado. Na verdade esse fato, mesmo que real, só se consumará com o tempo, com o seu funil inquebrantável que separará o joio do trigo, a genialidade do banal.

Existe algo de diferente em Bolaño. Algo da natureza semelhante a Rimbaud e Lautréamont, não por acaso os seus poetas favoritos. Bolaño é meio maldito, mas também é um estóico. Algo que caminha na corda bamba da dor entre o abismo e...e o que? Nenhuma ideia de paraíso do outro lado. Mas Bolaño não cessa de ser irônico consigo mesmo e extrai de toda a dor que contém a sua vida e a literatura um lado do espírito que se mantém indefectível diante da névoa que lhe obnubilava a visão. Bolaño fumava muito. Será que essa névoa era fruto de seu próprio ventre ou do ventre do mundo?

O que acontecerá em 2666? E o que acontecerá conosco depois de ler 2666? Para nós que amamos a literatura o livro parece ser um acontecimento que nasce com ar de imperativo categórico. E é um livro, pelo que pude saber dele, que trata também da própria literatura. Não seria interessante a literatura renascer quando o olhar está voltado para ela mesma e não mais para o mundo? Se o nascimento será belo ou não, não sabemos. A verdade é que o livro já parece se tornar Cult antes mesmo de ser lido. Algo meio oracular. Como numa tragédia grega onde o herói nasce determinado a ser aquilo que é independente do caminho que escolher.

Bolaño morreu cedo, de insuficiência hepática em Barcelona, em 2003. Tinha quase 60 anos. Não sei, mas a morte de Bolaño me lembra a morte de Proust. E aí, é claro que as circunstãncias penumbráticas em que a obra foi escrita me lembra também o desafio da escrita que foi também gerar Em busca do tempo perdido. Semelhanças?

Enrique Vila-Matas e Susan Sontag teceram grandes elogios ao chileno.

Dele, só li Noturno do Chile. A impressão foi boa. Mas desejosa de ser melhor. Talvez à espera de seus grandes romances. Impressão também de que Bolaño escreve bem e fácil. Lemos na correnteza as suas páginas. Mas um comichão a cada página virada me dizia sempre que talvez ele estava dizendo mais do que eu conseguia ler. E, ao terminar o romance, tive a certeza disso. Bolaño é sutil. É subversivo. E consegue dizer muito nas entrelinhas, mas o não dito só se completa com a investigação de nosso próprio pensamento.

Bolaño é também conhecido pelo ar detetivesco de seus romances. Finge que faz um romance policial. Claro, o que ele busca é outra coisa, mesmo que para isso tenha que investigar a morte e o desaparecimento (lembremos que a sua literatura é fruto da década de 70 e de seu exílio pela ditadura). É mero estratagema o fato de Os detetives selvagens tratar da busca de uma poeta desaparecida. Em 2666 busca também um crítico desaparecido. Bolaño parece ser senhor de sua arte e de seu estilo. Comecei a ler Os detetives selvagens e trata-se de uma escrita violenta. Bolaño escreve por uma literatura mais sincera. Por uma literatura sem medo. Vila-Matas fala que este romance soube seguir o caminho aberto pelo O jogo da amarelinha do Cortázar. E não apenas estruturalmente, mas subjetivamente também. Parei de ler porque quero ler o Bolaño como merece. E agora, minhas prioridades são outras. Agora quero ver quando 2666 chegar...aí pode ser o começo de um novo mundo. Que caminho ele abrirá? Vamos ver.

O texto vale mais pela dica para conhecer um novo autor do que pelas conjecturas que fez...

quinta-feira, 29 de abril de 2010

3- Eros e Eris

Seguindo um movimento próprio do movimento que aqui se anuncia como texto, achei mais seguro continuar escrevendo sobre ele mesmo para fechar um ciclo e o mês. Uma faceta dele que encontrei estudando os gregos, na mitologia, na Teogonia (que é também uma cosmogonia) narrada por Hesíodo. Teogonia porque narra o nascimento dos deuses (Teo= deuses; gonia=geração) e que, no princípio, deuses e natureza, eram para os gregos indivisíveis. A mitologia grega nasce como, então, uma cosmogonia e teogonia ao mesmo tempo.

E é nessa narração da origem de tudo que descubro uma coisa interessante. Eros. Depois do Caos e da Terra (Gaia) o terceiro deus que nasce é Eros. Mas Eros não é o amor ainda. Eros é o movimento. É o princípio motriz que gera, aquilo que impulsiona. Segundo Hesíodo: "Eros, o mais belo entre os deuses imortais, que amolece os membros e sujeita no peito o entendimento e a vontade consciente". E entendo com isso, no contexto da cosmogonia, aquele sopro de vida que amolece a matéria e a molda e que, na desordem das formas do caos e do sentido, começa a dar um significado e uma ordem para as coisas. Interessante essa primeira denominação de Eros. Se pensarmos bem, é isso também que estará como matéria em toda a questão amorosa. Que ser não é movido quando o amor o ataca e sopra em seu ouvido um sentido, uma forma? Podemos dizer que amor é, antes de tudo, movimento. Movimento da vida e que gera a vida.

Ainda na Teogonia encontramos outro exemplo. Na disputa entre os deuses, Cronos deve arrancar o sexo de seu pai (Urano, Céu) que o impede de nascer e, assim, separar Terra (Mãe) e Céu (Pai). Do corte, do sêmem de Urano jogado na terra e no mar, nascerá novos deuses. Afrodite que nasce no contato com as espumas das ondas do mar. As Erínias em contato com a terra. Estas representam o ódio, a vingança, a discórdia (Eris). A outra, o amor. Não é mero acaso a semelhança das palavras. Elas nascem de um gesto amoroso, amor pelo nascimento e pela liberdade de Cronos, mas também nascem através de um gesto de traição, do ódio de Urano, de sua vingança e sua discórdia. As Erínias, representam aquelas que se vingam de qualquer traição e de qualquer ação contra à ordem. Por isso são temidas por todos os deuses e homens. Quando algo vai de encontro à lei natural é o nome das Erínias que os gregos evocam. Na tragédia de Ésquilo, são elas que acusam Orestes por matar sua mãe. Elas protegem o sangue, o nascimento e a morte em sua ordem natural. Agradecidas pela manutenção da ordem, são as "Benevolentes". Contrariadas, são as Erínias, as "Iracundas". Não é de se espantar também que é tênue a linha que separa Eros de Eris...às vezes é apenas uma espuma (afros em grego quer dizer espuma...). Talvez o pacto entre o amor e o ódio se dê mesmo no proprio nascimento.

E aí, é um outro tipo de movimento, muito particular, que Eros e Eris seguem...movimento que condena a cada um ser como é....no tempo devido de seu movimento...

quarta-feira, 14 de abril de 2010

2- O encontro no meio da travessia

Quem leu o primeiro livro de Tatiana Salem Levy, A experiência do Fora:Blanchot, Foucault, Deleuze, poderia ir para o seu romance de estreia, A chave de casa, imaginando um romance teórico, cheio de experimentações do Fora, interseções entre os conceitos desenvolvidos ali e a prática escrita. Muito também se saiu sobre o romance por ser ele um acompanhamento de um tese de doutorado, um romance-tese. Pois bem. Vamos a um ritual básico meu antes de comprar qualquer livro. Pesquiso na internet, leio algumas entrevistas, pesquiso mais um pouco e pronto. Vamos à livraria. Olhamos o livro, folheamos algumas páginas, e, nesse ritual todo entre começar a pesquisa sobre o livro e, finalmente, adquiri-lo, toda uma imagem se desfaz para dar lugar a uma outra.

O que vemos é um romance de afectos. E estão enganados aqueles se, por isso, não verem no romance qualquer hereditariedade com o seu livro anterior. Deleuze dizia: a arte é criação de afectos e perceptos. No seu romance de estreia o que encontramos são afectos em estado puro. Uma verdadeira criadora deles. E é por eles que Tatiana nos faz enveredar sem medo na busca de sua protagonista.

Os afectos são fragmentados, assim como todo o romance. São várias histórias que se colocam ali: a personagem imobilizada (não por um problema físico, mas espiritualmente) que não sai da cama e que recebe a chave de seu avô para ir em busca de todo um passado; a história de seu avô e da sua mãe. Mas nada é paralelo. Todos as relações estão interligadas pelos afectos que atravessam os personagens. E conseguimos ver neles (nos afectos) duas intensidades: a da dor e a da perda. São por essas duas linhas que tudo acontece.

Poderíamos ver nisso um pessimismo? Um romance doloroso? Sem dúvida. Quanto maior a dor melhor a autora nos dilacera com sua escrita. Melhor ela consegue captar toda a potência do sentimento. A dor da morte da mãe. A dor da sua relação amorosa. Mas de todas as dores a dor que Tatiana prefere é a dor do renascimento. Dor? Sim. Como não dizer que um parto não dói? Dói. E não cansamos de nascer chorando todos os dias.

Mas isso é porque também morremos todos os dias. A morte possui várias facetas além de sua cara comum de morte. Esta é apenas sua forma mais perfeita e acabada. Mas é outra morte a que nos habita constantemente. Quem é que não tem a sensação de estar morrendo um pouco a cada dia? E não somente pela culpa do tempo que sabemos ser sempre, para nós, negativo. São os acontecimentos que nos afligem qualquer tipo de dor, qualquer náusea, qualquer imobilismo, que nos matam um pouco a cada dia. Sempre que há imobilismo no ânimo (da alma e do corpo) há a morte com sua outra cara. Decepção amorosa, morte da mãe, um triste passado, são alguns dos exemplos que Tatiana Salem Levy nos coloca como forma breve de morrer. Forma breve que tende a se estender até a sua forma mais larga e infinita. E cada um sabe a morte que nos cabe diariamente.

Porém, o que lateja como indagação no romance é: se a vida não nos mata completamente ela também não cessa de nos ofertar com uma nova vida depois da morte. Se uma coisa morre em nós é dentro desse espaço vazio que uma outra coisa pode renascer. E se a vida nos dá uma chance de recomeçar, porque não? É nessa perspectiva que a personagem, cansada de morrer no imobilismo, parte em busca desse passado que lhe sugere o avô. E não interessa se ela encontrará a porta que a chave abre ou não. É a busca e o que encontramos nessa busca que se torna o grande aliado da vida. É uma mania nossa a de existir colocando um ponto final na nossa forma de viver. E insistimos em ser. E insistimos num amor fracassado desde o começo. E insistimos num passado. E é esse o imobilismo da forma no seu modo mais sutil.

O personagem não encontra nada do que buscou na sua aventura contra o imobilismo e, no entanto, encontrou exatamente aquilo que buscava: movimento, Kínesis. Se temos a chance de renascer todo dia, porque não? Porque não renascer mesmo, além do despertar habitual, com outro ânimo, com outra vida, com outro presente? Hein, você que me lê, porque não? Porque não tentar ser mais, mesmo que doa, mesmo que não encontre o que procura?

Logo no começo do romance encontra-se esse diálogo entre mãe e filha:

"Quero sair do lugar, mas ainda duvido se é essa a melhor escolha. [Não desanime. No início de uma partida, não existem escolhas melhores ou piores, apenas escolhas. É cedo para um julgamento.] Mas e se errar? Se me afundar ainda mais nesse poço de imprecisão e incerteza? Que garantia tenho de que não tropeçarei em mim mesma? [Não posso lhe garantir nada. Só posso prometer uma coisa:arrisque-se, e estarei sempre pronta a lhe estender a mão.]

Como bem disse Guimarães Rosa, e que Tatiana Salem Levy retomou usando de epígrafe no seu primeiro livro: "O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe pra gente é no meio da travessia." Pois então, que cada um busque o seu. Sem medo, sabendo que o medo lá estará. Sem dor, sabendo também que lá estará. E encontraremos. O que? Descubra. E nisso já estará um grande exercício para alma, um grande movimento...