domingo, 11 de julho de 2010

10- Diálogos do ser

Ei. Olha para mim. Agora olhe para essas palavras, você que me lê. Agora esqueça tudo isso...olhe para você. Nada mais interessa. Olhe para o seu fora, aquilo que nos aparece. Olhe para o seu dentro, aquilo que é o sumo do que vemos, ainda que não totalizado, mas que pulsa como potência para a realidade.

Isso. Olhe novamente para você, dessa vez com um olhar cerrado, profundo, como quem procuro na extensão do horizonte uma iluminação. É mero detalhe que você esteja lendo essa página porque o que interessa nunca esteve aqui. É de você que falo. É de você que deve escutar a voz.

"Conhece-te a ti mesmo": frase inscrita no pórtico do oráculo de Delfos e que Sócrates entende e introjeta como sua missão. A partir de agora devo conhecer a mim mesmo. Não seria essa a missão de todos? Mas antes de nos analisarmos parece que estamos invocados com os defeitos dos outros. Ah...se fosse fácil mudar a nós mesmos...e nesse nosso hábito de criticar queremos mudar antes o mundo...e esquecemos de nós...Ah...se fosse fácil mudar a nós mesmos...O quanto é que você conseguiu mudar em você, hein?

Mas Sócrates está lá no oráculo para saber se é o homem mais sábio do mundo. E a Pitonisa pergunta: o que você sabe? Sócrates: só sei que nada sei. Pitonisa: és o mais sábio de todos os homens. Primeiro passo: reconhecer a ignorância. Segundo: sabendo algo, que isso é pouco, muito pouco. A partir daí buscar a si mesmo. As duas frases "só sei que nada sei" e "conhece-te a ti mesmo" estão unidas mais do que nunca, como elevação para a busca (de quê?). A verdade. Mas não como lugar último e iluminado onde de lá não se sai e nem quer sair. A verdade como processo e utopia. E uma vez escutei de um uruguaio, que por sua vez escutou de outro, no seguinte diálogo: a utopia serve para quê? Primeiramente, para nada. Mas lembre-se que ela é como o horizonte. Ele está lá. E queremos alcançá-lo, lindo, onde tudo se promete. Mas a cada passo que damos em sua direção ele recua. A cada dez passos mais, mais ele se afasta. O horizonte como verdade em fuga . Mas para quê, então? Para isso, caminhar. E ponto.

Sócrates caminha na sua utopia. E como ele todos os filósofos. Mas o primeiro desafio, antes de construir, é derrubar, destruir. Arrancar do outro que o que se fez dele ainda não é nada. Maior é o que ele pode fazer consigo mesmo. Porque não é de hoje que somos forjados mais com matéria imposta, passivamente ou não, de que com matéria criada e sabida como nossa. Quebra do princípio de originalidade: somos tão pouco nós mesmo. Bem menos do que a gente imagina. Sempre mais históricos, sempre mais hereditários, sempre mais outro que mesmo. Então, Sócrates quebra. E aqueles que se permitem tal desonra do que se é - mas qual eu? - num primeiro passo recua, mas depois avança como nunca. És outro, sendo de ti.

Mas quem hoje se permite abalar as estruturas? Quem é humilde o suficiente para dizer que até hoje não se conhece direito? Quem? Não é de se estranhar que Sócrates fez muitas inimizades, e que por causa dela foi julgado e condenado. Mas quem é que suporta tamanha ironia? Pois o danado do Sócrates sabia das coisas. Claro que sabia, ora bolas. Essa é a sua maior ironia. Mas depois de passada a ironia vem a graça. No momento exato em que o outro se permite ver - no diálogo - de que precisa do outro para saber. Mas de que é capaz, também, por si de ir onde quiser. No diálogo, sempre no diálogo, a filosofia afirma o outro para ser ela mesma. Aprendemos com a filosofia um modo ser. Ela que pretende saber tudo, sabe que não sabe nada. Que tudo ainda é muito pouco. Que sempre nos falta...diálogos do ser...e o homem quando se comunica já precisa do outro, mesmo que para caminhar sozinho, e ser.

Ei. Olhe para essas palavras. Mas olhe para você. E assim vamos, juntos.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

9- Congruências

Qual é o grande desafio quando se decide falar sobre um livro? E o pior, qual é o desafio quando se decide escrever algo de novo sobre um livro que está na moda, que muita gente leu e que, cada um a seu jeito, soube tirar do livro o essencial? Bem, o livro de que trato é A elegância do ouriço da filósofa francesa Muriel Barbery.

Antes de escrever esse texto percorro os inúmero blogs que tratam do livro. E eles dizem mais ou menos a mesma coisa: um pouco à moda de cada um o tema do livro. Mas encontrei uma variação interessante no http://peregrinacultural.wordpress.com/2008/07/08/a-elegancia-do-ourico-muriel-barbery/, a variação que aborda o jogo de imagens que faz Barbery em relação com os quadros do Magritte. E a suposição de que o nome da personagem principal, Renée, seja uma homenagem ao pintor. E desta homenagem uma pista interessante para se percorrer o romance.

E a dica vale. É sem dúvida no jogo do ocultamento que o romance encontra um dos seus principais motes: eu sou; mas a minha aparência não diz realmente o que eu sou. E você que me olha com a sua ideia de mim, que não se mantém apenas no presente mas em todo o estereótipo da visão, é incapaz de dizer além do que vê, é incapaz de supor além do visível um mundo. Uma metafísica da existência se vislumbra para além da normalidade do ser, para além do cotidiano, para além de meras concierges e crianças. Assim, Paloma e Renée juntas. Juntas como sempre estiveram. Mas além desse jogo de espelhos partidos onde o que se vê é sempre outro, onde a crítica do olhar é sempre severa (e aqui vale fazer uma singela homenagem ao Saramago que na epígrafe do Ensaio sobre a cegueira nos diz: Se podes olhar, vê. Se podes ver, repare. Nessa importância de ter olhos quando todos os demais cegaram...), onde o que é oculto parece dizer mais que o explícito, onde a profundidade ganha da superfície é que a escritora francesa aponta para as congruências da existência...

Que congruência? Esse é um dos títulos de um dos capítulos do romance. E é dele que tento partir para abordar o romance. Mas antes de tentar escrutinar as congruências do romance quero apontar pequenos souvenirs literários que em nada mudarão a leitura ou releitura do romance. Bijuterias, portanto, para o apetite da alma: 16 de junho é o dia que Paloma decide se matar. É justamente nesse dia que é desenrolado todo o romance Ulisses de James Joyce. Bijuteria de camelô: James Joyce escolheu esse dia para tecer o romance porque foi num 16 de junho longínquo que ele conheceu a sua mulher Nora Joyce. Será que ela se deu conta disso?

Bem, isso não tem a absoluta relevância.

Outra congruência é com Albert Camus. Também um filósofo que escreve romances. E ele mesmo diz que para filosofar era preciso escrever romances. E ela o faz muito bem. Paloma parece, desde o princípio possuir essa afinidade (eletiva?) com a filosofia de Camus. A vida não tem sentido, ela é absurda por excelência e, simplesmente, não vale a pena viver. Camus, no Mito de Sísifo, começa com essa questão. Não interessa mais nada, se a vida tem cinco ou dez dimensões, se a alma tem cinco ou dez vida, nada disso importa, o que vale a pena saber é se essa vida, a única vida que temos a absoluta certeza de existir, vale a pena ou não.

É para colocar a vida no limiar do abismo que Paloma escreve os seus pensamentos profundos e movimentos do mundo. É desse ato de olhar para escrever, e para escrever é preciso olhar além do olhar às coisas, que Paloma consegue extrair da vida as congruências que a fará não mais desistir da vida. E o que percebemos da natureza da congruência é que para acontecer ela exige essa harmonia natural que a faz perpétua e frívola, no tempo exato de cada coisa. Significativa é a passagem em que Paloma encontra o THE movimento. Nele, ela encontra a sua lei que a protagonista perseguiu durante todo o romance, a perfeição de alguma coisa que valesse a pena viver:

"Eu, ao olhar aquela haste e aquele botão, intuí num milésimo de segundo a essência da Beleza. Sim, eu, uma pirralha de doze anos e meio, tive essa chance inacreditável porque, hoje de manhã, todas as condições estavam reunidas: mente vazia, casa calma, lindas rosas, queda de um botão. E foi por isso que pensei em Rosard, sem muito compreender no início: porque é uma questão de tempo e de rosas. Porque o que é bonito é o que captamos enquanto passa. É a configuração efêmera das coisas no momento em que vemos ao mesmo tempo a beleza e a morte.

Ai, ai, ai, pensei, será que isso quer dizer que é assim que temos de viver a vida? Sempre em equilíbrio entre a beleza e a morte, o movimento e seu desaparecimento?

Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem" (Pág.: 293)

E quão difícil é, e cada vez mais, habitarmos este instante em que todas as condições estão favoráveis para realmente captarmos uma epifania nas pequenas coisas...talvez numa viagem com cabelo ao vento conseguimos olhar para uma paisagem e sentir o movimento e seu desaparecimento com essa eternidade e frivolidade natural dá própria essência do tempo....talvez...

Se Paloma procura a congruência do mundo, a harmonia das coisas belas (Kant, na sua Crítica da faculdade de juízo diz que o belo é a harmonia, é o acordo tácito entre as nossas faculdades, a comunhão dos sentidos que o objeto sentido faz... - estou simplificando demais o Kant, coitado, deve estar socando o túmulo de tanta raiva de mim... mas é porque acho que esse texto vai ficar longo demais e você já deve estar se cansando dele...), Renée vive, mesmo sem saber, essa harmonia do destino, a congruência da beleza enredada em si.

Renée se oculta durante todo o romance. E o seu destino é trágico. Ela só se abrirá para a vida quando for tarde demais. Tarde demais não. Na congruência de sua existência. Ela faz valer a máxima de Paloma: "o que importa não é morrer, é o que está se fazendo no momento de morrer". Talvez toda a vida de Renée tenha se preparado, no ocultamento, para ser aquilo que foi. E, talvez, todo o nosso destino seja isso também: uma preparação para uma morte inescrutável, inescrutável não no acontecimento em si, mas na sua forma e no seu tempo. O nosso destino um pouco louco: se preparar para morrer da melhor maneira possível - mesmo no trágico, mesmo no absurdo - mas em harmonia com aquilo que você quer. A harmonia da busca mais perfeita que a harmonia do encontro. E a beleza do romance, e o nosso comprazimento com o destino de Renée é muito maior do que com o destino de Paloma. Paloma sabe disso: o destino de Renée é a percepção do seu movimento do mundo mais completo, do seu pensamento profundo ainda não escrito. O sempre no nunca que nos aponta a última página do romance.


Toda literatura é uma doença, todo livro é um livro doente, na voz de Antônio Lobo Antunes. No contraponto intrínseco, toda literatura é uma saúde, uma renascimento, uma tentativa, uma linha de fuga para sair do lugar em que se está. Movimento do ser pela escrita, pela invenção de personagens e dos afectos.

Não sei se A elegância do ouriço possui o estatuto de uma obra de arte. Mas é um livro elegante, repleto de frases espirituosas sobre a vida contemporânea, repleto de referências literárias e filosóficas, que recomendo ler com um lápis para sublinhar as passagens mais interessantes. Não sei se terá a perenidade dos grandes romances, creio que não, mas isso não tem a mínima importância para o agora em que se vive. O importante é o que fazemos enquanto vivemos na espera da morte inescrutável. Será que o que buscamos agora é suficiente para glorificar essa morte, não para os outros, mas para nós mesmos? Se morrêssemos lendo A elegância do Ouriço morreríamos felizes como Renée. Pela promessa de um destino anunciado, pela veia aberta de um destino permeado de arte e literatura que o próprio romance nos dá. Barbery nos dá a abertura para um mundo que para alguns pode ser bem novo. Para os que já o conhecem, reacende a chama para continuarmos nesse destino incinerário que é a vida inflamada de arte, de literatura, de filosofia, de vida, pois.

domingo, 13 de junho de 2010

8- Intensidade de si

Escrevo para não esquecer. Primeiramente, para lembrar a mim mesmo, acima de tudo, das verdades que a gente descobre ao longo da vida. Para evitar a fluidez do pensamento. Das coisas que nos atacam e fogem como se levadas por uma correnteza de um rio, a correnteza do tempo. Para evitar aquele estado de perplexidade que nos falou Fernando Pessoa no seu poema Tabacaria: "Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu." Precisamos cravar a palavra no papel, incialmente. Depois, cravá-la na alma - uma tatuagem no espírito? -, na existência, utilizá-la como se utiliza um martelo ou uma faca. Cortar a existência com a palavra. Martelar a existência com a verdade.

E quando digo verdade aqui a coloco no sentido dos gregos, do seu sentido de verdade. Não essa verdade que conhecemos, a da adequação do sujeito que enuncia com o objeto enunciado. Não. Martelar a existência com a verdade é fazer um tributo à memória e ao não esquecimento. A verdade dos gregos como Alethéia: o não esquecido. Aquilo que por ser verdadeiro deve permanecer na existência. Assim é que, primeiramente, com os poetas (inspirados pelas Musas, filhas da memória) e, depois, com os filósofos, a Alethéia era pronunciada. Pois então: porque gastarmos tempos falando do ruim, criticando o ruim, quando o que na verdade vale a pena ser celebrado com a potência de nossa voz é a excelência, o melhor, o mais belo? Aquilo que é ruim o próprio tempo faz questão de exilar. Aquilo que não é verdadeiro o próprio tempo joga no esquecimento. E quanto mais tratamos de falar do ruim mais ele ganha força pela inversão do nosso discurso. A negação, o esquecimento, é a nossa mais bela forma de criticar. Porém, não estou aqui para negar e sim para afirmar.

E o que não quero esquecer jamais? O que esse texto quer celebrar? O que quero dizer, primeiramente para mim, e que me falta, e que vi, e que quero tê-lo?

Além de amar a arte e a filosofia, amo os esportes. É dele que tiro a questão de hoje, afinando, então, o meu discurso com o de Deleuze, no qual é preciso ir para os espaços não filosóficos para extrair materiais filosóficos. Esportes então. E mais propriamente o tênis. E, mais especificamente, um tenista: Rafael Nadal.

Quem convive comigo sabe que sempre torci mais para o Roger Federer do que para o Rafael Nadal. E isso é muito fácil de explicar: a genialidade a gente aprecia logo de cara. O Federer é um gênio do tênis. O homem que faz aquilo que sabe simplesmente por dom. Tudo lhe é natural. O movimento flui. A técnica lhe é imanente. É fácil apreciar o tênis do Federer como é fácil apreciar o belo, a harmonia. Mas me rendi ao Nadal. Ele não é um gênio. A técnica não lhe é natural...a técnica lhe veio depois de muito trabalho...e é dele que quero extrair alguma coisa...

Ver uma partida do Nadal é ver uma batalha de fúria. A fúria do homem em nome de seu limite. Cada corrida é um aposta contra o fracasso. E o tenista corre atrás da bolinha, como um louco, como um touro (O Touro Miúra como o chamam), numa Odisséia sublime em busca do máximo de si. E é aqui que ele ganha o meu grande elogio: ele nos mostra o que é tentar sempre estar na permanente excelência de si. E, não é fácil, sei e afirmo por experiência e risco: não é fácil estar no auge de si o tempo todo. Mas ele é a excelência da intensidade de si. Não o vemos baixar a guarda mesmo quando perde o ponto. Não o vemos desistir de uma bolinha sequer quando arremeçada contra a sua quadra. Vemos o seu poder de concentração em cada momento do jogo. Um poder de concentração lúcido e quase inquebrantável. É difícil, muito difícil, manter a intensidade de si. E é, geralmente nesse estado de concentração e luta, não contra o adversário, mas contra si mesmo, que ele, no ponto exato em que o outro perde para si mesmo e que se perde, ganha de todo mundo.

Pensemos numa vida. Na nossa. Quando é que estamos no nosso limite permanentemente? Ok. Menos, bem menos...em um dia: durante quanto tempo do dia conseguimos manter a nossa excelência, dar à vida o melhor de nós, nos doar com toda a intensidade a um ato? Sabemos que muito pouco, muita coisa nos tira dessa intensidade, preguiça, distração, tédio, sei lá o que mais. E quando simplesmente ainda temos força. Quando o nosso corpo está apto a ser mais, a ser tudo que quisermos...nós mesmos matamos essa potência, nós mesmos damos à nossa vida uma morte quase imperceptível da potência, uma forma preguiçosa de nos habituarmos a morrer...

Talvez a diferença entre os grandes e os medíocres seja essa tentativa em nome da intensidade com que nos doamos àquilo que tomamos para nós como nossa ação. Essa capacidade de ultrapassar. Tirar, talvez, desse texto um objetivo modesto: chegar ao fim do dia, de todo dia, e dizer: cheguei no meu limite. Fui até onde deu naquilo que me dispus. Até onde o músculo se contrái e endurece pedindo descanso. É o descanso que deve falar por si e não nós por ele. Sabemos que não é fácil. Mas busquemos essa intensidade de si. Essa força, essa capacidade, a potência de existir.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

7- Um texto para quem precisar

Esse texto nasce com semblante de auto-ajuda ainda que não queira sê-lo. Mas nasce com o intuito de ajudar alguém. Quem? Eu mesmo? Uma amiga minha? Ou alguém que simplesmente o lê e que precise. Ainda que não diga nada de novo. Ainda que diga o que todo mundo sabe. Ele nasce.

E uma revelação me interrompe a escrita: mais importante do que ler é ler o que se precisa na hora certa. De nada adianta ler o melhor romance do ano, o melhor livro da história, ler Clarice Lispector ou Kafka, Marcel Proust ou James Joyce, se a sua alma não pede exatamente aquele material. O sucesso dos livros de auto-ajuda se inserem nesse contexto, ainda que não digam nada de novo, que digam o que todo mundo sabe, eles atingem a pessoa no seu nervo, no exato ponto em que necessitava, ainda que raso, rasteiro, ainda que nada de novo, ainda que nenhuma verdade, nenhuma epifania.

Li grandes livros que me diziam grandes verdades. Porém, em alguns casos, elas não me atingiram como deveriam. E é quando penso que sou um mal leitor. De vez em quando. Quando a pressa me domina, quando a fúria de terminar ultrapassa a fúria de saber e de fruir. Mas, constantemente, não. E mais quando sei que aquilo que estou lendo é aquilo que preciso. O primeiro passo de um grande leitor é saber qual a matéria espiritual que necessita e não lê por modismo ou para se livrar do livro. Mas como saber senão no ato da leitura? Toda leitura é uma aposta. E para além dos livros: toda escolha é uma aposta que só dá a garantia da vitória ou da derrota depois de devorada. Acontece de precisarmos de outra coisa depois que já estamos no meio do caminho de uma leitura onde o diagnóstico da doença foi certeiro? Acontece. Geralmente mudamos de livros. Mas o grande ganho parece ser quando a leitura, depois da excelência da cura, continua a exercer sua influência tenuamente, vagarosamente, no imperceptível. Dando-nos a sensação de que a dor já foi sanada. Mesmo assim, devemos continuar a ler: como um antibiótico que devemos tomar os sete dias depois de já termos curado a nossa dor de garganta. Os meus maiores ganhos aconteceram quando, já depois de terminada a leitura, do livro empoeirado na prateleira, alguma imagem ou verdade me assalta. Ai vi que a leitura foi correta. Quando ela inverteu o jogo e transbordou o tempo.

Não queria dizer nada disso nesse texto. Queria ajudar alguém de outra forma. Dizer o óbvio: que somos energia, que temos de aproveitar o tempo dos nossos átomos se condensaram em nós para existirmos ao máximo. Que depois eles voltam a se embaralhar, a se perder em outros átomos, a fluir a sua energia de outra forma, a voltar para o todo de onde partiu. Mas agora é o nosso tempo: matéria e energia em nós. Porque não celebrarmos isso que somos agora, nesse átimo de tempo de individualidade, para devolvermos ao mundo um pouco dele mesmo, transformado? E aqui me surge a imagem da água-viva (E sim, uma das formas de se entender o romance da Clarice): ela é 90% (ou alguma coisa por ai) feita da mesma matéria do oceano...mas por um segundo ela se desgarra, se condensa...e a sua compleição se difere de tudo o mais...e é nesse espaço que a vemos se movimentar...e é nesse tempo que ela queima...até voltar...até ser novamente água...pura água...Saber sim que somos individuais. Saber sim que somos um sopro de vida. E saber aproveitar isso. E saber também se espalhar e nadar nessa imensidão do mundo. Saber que somos também uma parte do todo e o todo uma parte de nós: água-viva. E vale a dica para, quem precise, ler o romance homônimo da Clarice Lispector.

Bem, ainda que nada de novo. Ainda que nenhuma nova verdade. Um texto para quem precisar.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

6- De um certo platonismo no amor

E ainda dizem que a filosofia está distante da realidade. Distante é talvez a influência de um certo pensamento que não cansa de agir sobre a realidade. Assim, pois, pensamos e sentimos de forma menos originária do que acreditamos. Um exemplo?
Quem se atreve a dizer que nunca amou alguém platonicamente? No que consiste isso que tão comumente chamamos Amor Platônico e que não cessa de nos arrebatar nas nossas experiências afetivas? Que diabos tem a ver o filósofo grego com esse sentimento que agora pulsa em mim como verdade e particularidade quando penso na mulher amada? E eis Platão no meio do meu amor, num intervalo de quase 2.500 anos, com a cara mais descarada do mundo, segurando vela para nos iluminar...e que sombra ela proporciona...

Geralmente dizemos do Amor Platônico o mais latente, aquilo que salta logo aos olhos quando pensamos num ser que ama platonicamente, ou seja, um sentimento de exagero. Exagero avassalador, desmesura de um sentimento que não tem forma, que não cabe dentro da gente. Sofremos, choramos, mal comemos, mal dormimos, mal vivemos. E o pensamento e o coração imersos numa certa fúria de sonhos e idéias. Como diz Comte-Sponville, "Aliás, o que é estar apaixonado senão cultivar certo número de ilusões sobre o amor, sobre si mesmo ou sobre a pessoa de pela qual se está apaixonado?" É o exagero que marca, é uma dose muito alta de romantismo, o Amor Platônico. Mas por quê o exagero ao pensar no ser amado? E aqui está o rasgão que Platão faz na realidade. Só exageramos no amor porque idealizamos.

No banquete, obra do filósofo onde se discute o amor, existem duas vozes que repercutem: Aristófanes e Sócrates. Aristófanes reside em nós quase como domínio público. Quer ver? Ele aparece no Banquete nos contando um mito de como éramos: "Outrora nossa natureza não era como é hoje, era bem diferente. Cada homem constituía um todo, de forma esférica, com costas e flancos arredondados, tinham quatro mãos, o mesmo número de pernas, dois rostos totalmente idênticos num pescoço perfeitamente redondo, mas uma cabeça única para o conjunto desses dois rostos opostos um ao outro; tinham quatro orelhas, dois órgãos de geração e todo o resto e, conformidade." Eram três os gêneros da espécie humana: os machos, contendo dois sexos masculinos; as fêmeas, dois sexos de mulher; e os andróginos, com o sexo masculino e feminino. A força dessa espécie era tão imensa que resolveram desafiar os Deuses. Como punição para o desafio, Zeus os dividiu ao meio num corte vertical." Desde então, o destino é encontrar a nossa parte separada que irá nos completar perfeitamente. Encontrar a nossa alma gêmea, a nossa cara metade, que nos devolverá o êxtase de sermos Um novamente, total. O amor para Aristófanes seria essa completude,uma fusão, esse júbilo ao encontrar o ser que desde sempre é, também, nós mesmo.

Platão, na voz de Sócrates, refuta Aristófanes. O sentimento de amor, esse com que buscamos a nossa metade, não pode ser nunca completude. É incompletude. Só buscamos no outro o que nos falta. Só desejamos o que não temos. Se estamos sempre fissurados, esse sentimento que nos movimenta em direção ao outro é o Amor. Amor por nós mesmos, amor por aquilo que não somos e que temos que reconstituir. Mas, na busca por essa totalidade, a própria busca é o sofrimento, mas um sofrimento ligado a um certo prazer de conquista, de sonho. Porém, Eros nunca está saciado.

O ponto comum entre as duas teorias está talvez na idealização. Seja sendo completude ou incompletude, o que nos move é uma certa idéia, um certo ideal que temos de alcançar através da pessoa amada, através do amor. Um certo paraíso. E eis aqui também o mito da caverna para reforçar a grande luta de Platão em nos conduzir para um mundo Ideal. O homem libertado de seus grilhões onde só via sombras, agora vê a luz, vê a verdade das coisas. O amor platônico não seria um estado que buscamos onde vemos um mundo com mais verdade, com mais clareza,com mais harmonia, onde tudo é menos vacilante, como a sombra que não cessa de oscilar, do que é? A busca pela completude, essa beleza solar de tudo, não seria um estado de imutabilidade onde reinaria a paz total?

Não podemos deixar de elogiar a grande alegoria que faz Platão e o caráter revolucionário desse mito. O homem libertado, o homem que não se permite terminar a busca de um mundo melhor - Ideal - é o elogio que Platão parece fazer. E talvez seja essa a imagem mais forte que retemos dele, do homem que não se aliena numa visão com antolhos, que olha pros lados e pra trás, sempre almejando subverter o que está posto. Bem sabemos como precisamos idealizar nos campos de nossa realidade que já estão secos e infrutíferos.

Toda idealização é uma violência contra o real.

Mas me parece que, nos domínios do amor, essa idealização do outro soa um pouco desrespeitosa. Nesse rasgão que Platão faz na realidade, pela idealização, ele deixa de legitimar aquilo que existe por si mesmo como o estrangeiro da nossa idealidade. Porque o outro não pode possuir a sua própria força, como algo que existe por si e para si? Uma sombra também existe para si e está tão impregnada de verdade como a luz. Nessa nossa busca do amor idealizado não desejamos o outro como ele é, nos seus devires e singularidades, mas como representação de nós mesmos, do ser ideal que um dia montamos para nós. E quantos amores já perdemos nessa idealização! Quantos! O outro para nós carece de ser ele mesmo! O outro é sempre violentado em nome de uma idealidade! E o quanto de real matamos, e quantos outros já matamos, quantas realidades! A idealidade pelo que violenta também impossibilita outras realidades que podem nascer fora de nós.

E o ser platônico no final de sua idealização frustrada - o outro por mais perfeito que seja frustra a idealização... - no fim da relação que não deu certo ainda diz com um certo ressentimento: você não era como eu imaginava, me decepcionei com você, pensei que você era uma coisa mas é outra...

O outro me parece ser o lugar que não permite fincar bandeira. O outro não se deixa dominar. E podemos amar a outra pessoa assim como ela é? Sim. O outro, indeterminado, alheio ao que conhecemos, novo, singular, real (mais real do que qualquer idealização) nos permite um júbilo pelo simples fato de exitir."Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa", como nos lembra Pessoa. A paissagem que não possui o homem e nos encanta. Inexorável e apaixonante.

E o amor que é também da ordem do real não se permite idealizar. O amor é sempre outro. O outro é o real que violenta a idealização.

domingo, 16 de maio de 2010

5- Um destino absurdo

Para H.C.G.


Este texto é inspirado em Borges. Na possível coerência que pode haver entre as paixões. Além de seus livros, a literatura nos une. E o destino absurdo é esse: dedicar-se à literatura de forma dilacerada como se ela fosse a pedra fundamental da humanidade, àquilo sem o qual ninguém consegue viver. Engano. Todos conseguem viver sem a literatura, inclusive eu que consigo ficar plenamente bem (uns 5 dias?) sem ela. Quando há gente, quando há felicidade, quando há amor, quando tudo parece fazer sentido.

Mas logo um pequeno comichão no organismo, se é no cérebro, no coração, ou no esôfago, eu não sei, parece projetar uma necessidade. Será que tudo pode ter sentido pleno por muito tempo? O quanto dura uma felicidade? E este sol, este mar, este amor? Existem? O que é verdade nisso tudo? Será isso, só isso? E ai, amigo ou amiga, leitor ou leitora, o mundo escurece (ou clareia!) e me sinto impelido para um novo tipo de encontro, uma velha amizade, um aconchego que nasce justamente da batalha, do tédio, da raiva, da injustiça, da desesperança...e eis a literatura.

O certo é que eu não consigo viver muito tempo sem ela, sem a filosofia, sem os livros, sem a sensiblidade que ela evoca. E o destino, no limite do desejo e do conhecimento, parece se tornar absurdo... Porque um livro não basta. Conhecer um mundo diferente é pouco. E um mundo quando nasce se desdobra, quem lê sabe. Não apenas nos contentamos em ler um livro de um autor, mas todos. E um autor também não basta. É preciso uma população inteira, uma época, uma tradição. E, assim, de uma hora para outra estamos envolvidos no nó da biblioteca, na esteira de todos os livros possíveis, de todos os conhecimentos dos mundo.

Claro, o conhecimento não basta. Só conhecendo todos os afetos, todas as formas de sentir, é que poderemos nos sentir saciados. Não conseguiremos. Então o nosso destino será esse mesmo, absurdo, de ler e reler tudo, de sentir e ressentir, de amar e de reamar tudo que na vida transborda ou chora, tudo que dói e não dói, tudo que é e não é.

E para que tudo isso? Para que sentir tudo? Para que saber tudo? O que é que conseguimos fazer com isso tudo? O mundo melhora com essa nossa sabedoria? E ainda, e mais grave ainda, nós melhoramos? Ou será que ficamos é mais confusos em existir nessa profusão de coisas que nos atingem por nosso própria vontade (pois basta não querer ser atingido e viver na paz, simplesmente...e sabemos que isso é bem real, talvez mais real que todos nós, leitores)? No final das contas, para que ler?

Talvez, seja o nosso destino o pior de todos. Mas nós o escolhemos.Ou, ao menos, não conseguimos sair dele facilmente. O que duvido é se realmente queremos sair dele. Se essa desilusão que sentimos no trajeto é mesmo uma desilusão ou uma provação mais sincera das coisas do mundo, na exigência mais terna e lúcida, de se lidar com o que a vida pede: a diferença, a dor, o fenecimento, a morte, a desilusão, o bruto, e tudo o mais que na paz não sentimos...

Não sei o que ficará de nós. Mas a cada livro que abrimos, a cada página virada, é uma tentativa de ser melhor, de aprender, de entender que uma existência é pouco para sentir tudo, que precisamos do outro, mais do que nunca é o outro que nos ensina. Na tentativa desesperada de aprender a sentir, e de tentar dar forma ao que sente (seja na literatura, na filosofia, na pintura, na musica, enfim, na arte) ele tenta reter uma parte da vida. Eis o seu, e o nosso, projeto humilde, a sua ambição irrisória diante do movimento do mundo, do transbordamento das coisas.

Seja lendo ou escrevendo o que tentamos é nos igualar, ciente da impossibilidade, à grandiosidade da vida, sempre maior do que nós.

Se conseguimos com isso melhorar o mundo, não sabemos. Outros também tentam por outras vias. Iguais na glória ou no fracasso.

Mas que ao menos, desse projeto, saia uma pessoa mais digna, mais sincera, que, se não conseguir através da literatura e da filosofia consertar um pedaço do mundo e do outro, o mínimo que seja, consiga, pelo menos, consertar um pouco de si, um pedaço, o mínimo que seja.

Ao destino absurdo então. Uma possível justificativa dessa vida...

sexta-feira, 7 de maio de 2010

4- O que acontecerá em 2666?


A primeira coisa que tenho a dizer é que eu estarei vivo até que este dia chegue (assim espero...). Já chegou para os outros, mas para nós brasileiros a previsão é que chegue no dia 20 de maio. Bem, não se trata de uma nova profecia e nem do próximo fim do mundo. Trata-se do romance póstumo do escritor chileno, Roberto Bolaño, que a Companhia das Letras lança no fim do mês.

A minha expectativa é grande, imensa. E isso porque sou um leitor ávido de romances. E esse é grande, é enorme, e além do tamanho (856 páginas, mas as edições estrangeiras colocam o livro com mais de mil), a previsão é de que seja realmente um romance magistral, daqueles romances de vanguarda na linha de Proust e Joyce. É certo que estamos carentes de novos romances paradigmáticos. A impressão que temos é que nada realmente de mágico acontece na literatura. E a questão da genialidade de Bolaño parece suprir muito mais a carência de uma expectativa do que de um fato consumado. Na verdade esse fato, mesmo que real, só se consumará com o tempo, com o seu funil inquebrantável que separará o joio do trigo, a genialidade do banal.

Existe algo de diferente em Bolaño. Algo da natureza semelhante a Rimbaud e Lautréamont, não por acaso os seus poetas favoritos. Bolaño é meio maldito, mas também é um estóico. Algo que caminha na corda bamba da dor entre o abismo e...e o que? Nenhuma ideia de paraíso do outro lado. Mas Bolaño não cessa de ser irônico consigo mesmo e extrai de toda a dor que contém a sua vida e a literatura um lado do espírito que se mantém indefectível diante da névoa que lhe obnubilava a visão. Bolaño fumava muito. Será que essa névoa era fruto de seu próprio ventre ou do ventre do mundo?

O que acontecerá em 2666? E o que acontecerá conosco depois de ler 2666? Para nós que amamos a literatura o livro parece ser um acontecimento que nasce com ar de imperativo categórico. E é um livro, pelo que pude saber dele, que trata também da própria literatura. Não seria interessante a literatura renascer quando o olhar está voltado para ela mesma e não mais para o mundo? Se o nascimento será belo ou não, não sabemos. A verdade é que o livro já parece se tornar Cult antes mesmo de ser lido. Algo meio oracular. Como numa tragédia grega onde o herói nasce determinado a ser aquilo que é independente do caminho que escolher.

Bolaño morreu cedo, de insuficiência hepática em Barcelona, em 2003. Tinha quase 60 anos. Não sei, mas a morte de Bolaño me lembra a morte de Proust. E aí, é claro que as circunstãncias penumbráticas em que a obra foi escrita me lembra também o desafio da escrita que foi também gerar Em busca do tempo perdido. Semelhanças?

Enrique Vila-Matas e Susan Sontag teceram grandes elogios ao chileno.

Dele, só li Noturno do Chile. A impressão foi boa. Mas desejosa de ser melhor. Talvez à espera de seus grandes romances. Impressão também de que Bolaño escreve bem e fácil. Lemos na correnteza as suas páginas. Mas um comichão a cada página virada me dizia sempre que talvez ele estava dizendo mais do que eu conseguia ler. E, ao terminar o romance, tive a certeza disso. Bolaño é sutil. É subversivo. E consegue dizer muito nas entrelinhas, mas o não dito só se completa com a investigação de nosso próprio pensamento.

Bolaño é também conhecido pelo ar detetivesco de seus romances. Finge que faz um romance policial. Claro, o que ele busca é outra coisa, mesmo que para isso tenha que investigar a morte e o desaparecimento (lembremos que a sua literatura é fruto da década de 70 e de seu exílio pela ditadura). É mero estratagema o fato de Os detetives selvagens tratar da busca de uma poeta desaparecida. Em 2666 busca também um crítico desaparecido. Bolaño parece ser senhor de sua arte e de seu estilo. Comecei a ler Os detetives selvagens e trata-se de uma escrita violenta. Bolaño escreve por uma literatura mais sincera. Por uma literatura sem medo. Vila-Matas fala que este romance soube seguir o caminho aberto pelo O jogo da amarelinha do Cortázar. E não apenas estruturalmente, mas subjetivamente também. Parei de ler porque quero ler o Bolaño como merece. E agora, minhas prioridades são outras. Agora quero ver quando 2666 chegar...aí pode ser o começo de um novo mundo. Que caminho ele abrirá? Vamos ver.

O texto vale mais pela dica para conhecer um novo autor do que pelas conjecturas que fez...